Bem-vindos, nobres espíritos!

Sintam-se em casa em minha humilde morada. Aqui vocês encontrarão alguns de meus loucos textos que ora lhes convido a ler e, se assim desejarem, comentar...

janeiro 11, 2009

O Outro Lado do Arco-Íris

Escrevi este texto para um concurso literário cujo tema era, salvo engano, demonstrar nossa visão do meio ambiente no futuro em uma crônica. O texto vencedor pode ser lido no site do concurso no link anterior.




Não havia nada melhor do que um belo passeio pelas manhãs. Era revigorante comungar com aquela imensidão de verde nos campos, observando o vôo errático, porém suave das borboletas e ouvindo o inebriante canto dos pássaros. Dava quase para sentir o gosto da brisa que usualmente acompanha estes cenários na natureza.

Leandro gostava de usufruir destes passeios com seu melhor amigo, Igor, um garoto russo com quem compartilhava seu costume matinal. Os dois tinham um amor incomum pela natureza, sentimento este que poucos de seus conterrâneos ainda ostentavam.

Uma chuva fina havia há pouco regado a relva, e no céu, resplandecendo ao lado do astro-rei, despontava um magnífico arco-íris coroando a imponente paisagem que vislumbravam.

- Quase que dá pra sentir o cheiro da grama molhada, não é, Igor? – Disse ao amigo.

Também haviam alguns animais por ali - uns pastavam como era o caso de um punhado de cavalos selvagens, enquanto outros repousavam, a exemplo de uma preguiçosa raposa-vermelha que observava com uma certa curiosidade contida aqueles dois filhotes de humanos. Um pouco mais afastada, uma despreocupada família de furões parecia brincar de pega-pega, perdidos no tempo dentro de sua brincadeira e quase destruindo um formigueiro próximo com seu passatempo frenético.

Quem disse que a perfeição não existe, com certeza nunca parou para observar o mundo natural: aquilo era a síntese do inefável.

- O que acha de irmos em direção àquelas montanh...

Antes que Leandro pudesse terminar aquela frase, um longo bip o interrompeu, seguido de uma mensagem em texto de cor verde-limão que percorreu o canto inferior direito de seus olhos. Ela dizia “Tempo Esgotado”.

- Desculpe, amigo, mas eu preciso ir... Meu tempo está acabando. Amanhã nos encontramos aqui no mesmo horário!

Mal o garoto terminou de se despedir e a antes bela visão dos campos que se estendiam para muito além do horizonte gradualmente se tornaram opacas até sumirem por completo. A vicejante natureza havia dado lugar ao breu imperscrutável e ao silêncio absoluto.

- Gostou do passeio? – Perguntou com sua voz metalizada o robô responsável pelo local enquanto ajudava Leandro a retirar seu capacete de realidade virtual.

- Ah, sim. Gostei. Gostei muito. – E ele foi sincero, apesar de sua voz não demonstrar qualquer indício de entusiasmo.

Apenas graças ao grande poder de processamento dos supercomputadores do local – uma espécie de “lan house” para ambientações 3D - é que era possível participar de uma simulação tão detalhada em tempo real. Os computadores pessoais da época não conseguiriam acessar um mundo persistente tão meticuloso e vasto quanto aquele; uma imitação quase perfeita, exceto pelo fato de que a ilusão engana apenas os olhos, mas não os outros sentidos do observador. Era uma bela imagem, mas carecia de alma, da paixão da qual são imbuídas todas as coisas criadas com amor - sejam quadros, sejam esculturas, sejam as próprias criaturas da Terra.

Ainda assim, esse era o substituto mais adequado à experiência real de que dispunham, já que os parques, além de muito pequenos, eram quase tão raros quanto as próprias florestas - e destas, as únicas que sobraram tiveram seu acesso vetado a qualquer humano independente do motivo, uma tardia tentativa de proteger o que outrora tão avidamente depredamos.

Leandro saiu daquele “cyber parque” rumo à sua casa, e enquanto atravessava a cidade observava atento a paisagem. O aço e o concreto dominavam o cenário com cores monocromáticas e frias. A névoa permanente era o resultado da extensiva poluição de décadas e sua presença bloqueava boa parte dos raios solares, motivo pelo qual ninguém saía de suas casas senão por estrita necessidade.

A cidade parecia estar de luto, e a sinfonia caótica de buzinas e motores – ironicamente o único sinal de vida naquela paisagem morta - fazia as vezes de uma marcha fúnebre. A chuva ácida escorria dos céus em profusão como as lágrimas de uma mãe que acabou de perder um filho - o planeta chorava.

O garoto conhecia bem esta cena, mas mesmo acostumado tal visão sempre lhe despertava um estranho sentimento que ele não conseguia classificar, algo próximo a uma mistura de saudade e melancolia.

É curioso e triste sentir nostalgia por algo que sequer chegamos a conhecer...




(A Grande Floresta de Concreto a tudo engolirá com sua insaciável fúria expansionista)