Bem-vindos, nobres espíritos!

Sintam-se em casa em minha humilde morada. Aqui vocês encontrarão alguns de meus loucos textos que ora lhes convido a ler e, se assim desejarem, comentar...

novembro 22, 2008

Vícios (Versão Beta)

Este é um texto beta... Beta porque padece de um mal: a má redação está ofuscando seu verdadeiro significado. De qualquer forma, submeto-o ao julgamento de vocês...


- Eu te amo, Osmar!
- E eu a ti, Odete!

E se beijaram como dois colegiais apaixonados, suas línguas se digladiando como dois moluscos em fúria.

- Ah, me desculpe, Odete, mas preciso ir, tenho horário...
- E amanhã, volta?
- Não sei, não sei... Vamos ver. – Respondeu seco, já se afastando em direção ao ponto de ônibus.

Desceu no lugar de sempre, em frente ao boteco do Osias, um refúgio onde os homens casados podiam conversar sem a fiscalização de suas patroas. Nenhuma delas arriscaria ser vista em um local tão rústico - pra dizer o mínimo - quanto aquele.

Sempre depois de um encontro Osmar parava ali pra aproveitar o gosto latente do mel labial das moçoilas como complemento ao sabor asséptico da cachaça.

- Olha lá, olha lá! É o casanova do Osmar, todo cheio de marra. – comentou alguém do balcão.



- É, rapaz... Parece que foi mais uma pra coleção dele. – respondeu outro.

Como parte do ritual, Osmar se aproximou do sagrado altar etílico e deu início à oração:

- Osias, desce uma da boa! Nada de cachaça barata, só coisa fina!
- Quem foi a vítima? – Respondeu o dono enquanto servia um copo cheio de Salinas no balcão.


- Ah, não importa, não importa. Já cansei dela.
- Você sempre vem com a mesma história... Larga todas depois do primeiro beijo! Como é que vai arrumar uma moça séria se continuar assim?
- Deixe estar, deixe estar. Não sirvo mesmo pra vida de casado.

Era sempre assim. Todos conheciam a rotina do Osmar: ele saía com alguma garota que conhecera, beijava a moça e corria para o bar pra tomar uns tragos e bater papo com os conhecidos, repetindo o ciclo com outra garota.

Já fazia isso há treze anos, mas não levava nenhuma de suas conquistas para a cama. Dizia a quem perguntasse que o sexo de nada valia perto da pureza do beijo de uma mulher.

Até que, um certo dia, começou a sentir uns sintomas estranhos: uma fraqueza aqui, um inchaço nos braços acolá, tudo isso salpicado por uma boa dose de tremeliques ocasionais e sangramento nas gengivas. Resolveu se consultar com o único médico dali, uma espécie de faz tudo daquela cidadezinha. Foi lá que recebeu o infeliz diagnóstico:

- Senhor Osmar, seu fígado está com cirrose. Vai ter que parar de beber. – Alertou o doutor com o mesmo tom monofônico de voz que usava para dizer tanto “Parabéns, é uma menina” quanto “Não se preocupe, é um exame rápido, indolor e meus dedos são pequenos”.
- Parar de beber...? – Osmar franziu o cenho, colocou a mão no queixo e pensou por um minuto, talvez o mais longo de sua vida.

Finalmente, ele respondeu:- Bom, acho que não tem problema. Nem gosto tanto assim de beber.

Parou mesmo. Osmar não colocava uma gota de álcool na boca mesmo passados 15 dias da consulta.Nesse meio tempo, encontrou uma nova paquera. Conheceu uma mulher de seus 40 e tantos anos, coroa bem conservada, ousada, decidida, muito mais racional que emotiva... Bem do jeito que ele gostava.

Levou a mulher pra almoçar em um restaurante argentino e dançou tango com ela até não agüentar mais.

Não demorou até que suas línguas se unissem em uma dança própria, tão erótica quanto os movimentos libidinosos das dançarinas do ventre.

Então, como sempre fazia, o malandro deu uma desculpa e escapuliu ligeiro dali.

Sentia-se mal. Entrou ofegante no mesmo ônibus de sempre e desceu em frente ao bar, seu antigo templo. Sentia uma vontade incontrolável de se juntar aos fiéis, mas estava proibido de provar a hóstia. Havia sido excomungado daquela igreja.

Deu uma boa olhada nos seus companheiros de copo, e voltou cabisbaixo para casa.

Chegou em seu lar sofrendo de um forte enjôo. Correu até o banheiro, lavou a boca com uma boa dose de sabão e, sem conseguir controlar o conteúdo do seu estômago, vomitou o almoço caro que pagou para sua ex-paquera.

Ele se sentia vazio...


Depois disso, nunca mais apareceu. Alguns amigos do bar encontraram-no em outra cidade. Dizem eles que, após avistá-los, o ex-malandro saía correndo como quem viu um fantasma. Um deles chegou até a comentar que avistou o sujeito vestindo uma batina, mas quem seria louco o suficiente para confiar nas palavras de um bohêmio?


Autor: Jarbas Lima Alves da Silva

(Como irá se encontrar aquele que vive fugindo de si próprio?)

novembro 12, 2008

Um Espetáculo de Vida

Nasceu inocente como todas as crianças livres das máculas do mundo.

Cresceu otimista, alimentando seu sentimento com as chamas passionais da esperança.

Entrou na faculdade, e com isso recebeu o choque de realidade: viu, pela primeira vez, a mecânica do espetáculo pelos bastidores.

Resignado, se tornou realista - homem mais prático, mas nem por isso menos combativo.

Em pouco tempo se cansou, seus esforços obstaculizados pelo roteiro imutável dos diretores.

Tornou-se, então, um niilista, encarnando seu personagem medíocre com desprezo até o último ato.


Em sua derradeira cena, quase conseguia escutar os efusivos aplausos de uma platéia sádica que nunca chegou a conhecer...

FIM!

Autor: Jarbas Lima Alves da Silva


(A ilusão é doce enquanto dela não tomamos conta)

novembro 04, 2008

Vende-se

Um poema em homenagem à minha musa inspiradora.




Vendo sonhos e promessas, preparados em banho-maria e congelados no freezer da viabilidade.

Vendo a esperança de um dia melhor, e envio de brinde a coragem para alcançá-lo.

Vendo a sabedoria de um quarto de vida, com desconto se levar junto a imaturidade que a acompanha.

Vendo minha força e meu suor, tratar comigo mesmo.

Vendo um coração seminovo com pouco uso, porém partido por um choque contra a realidade – bom para peças de reposição.

Vendo uma alma inocente e com pouca quilometragem – frete grátis.



Vendo tudo, tudo o que quiseres

Tudo, menos meu amor por ti...


Autor: Jarbas Lima Alves da Silva

(Psique revivida pelo beijo de Eros, por Antonio Canova)