Bem-vindos, nobres espíritos!

Sintam-se em casa em minha humilde morada. Aqui vocês encontrarão alguns de meus loucos textos que ora lhes convido a ler e, se assim desejarem, comentar...

abril 06, 2008

REPUBLICAÇÃO - Reflexões da Alma - Parte 1/2

Estou completamente sem tempo, por isso a republicação. Depois coloco a segunda parte deste conto.



Trago a vocês mais um de meus maçantes textos... Este pequeno conto, que escrevi quando ainda estava no cursinho, tem uma forte carga simbólica para mim: este é o único texto que sobreviveu à Primeira Grande Queima dos meus arquivos de texto. Eu explico...


Antes mesmo de me tornar um ávido leitor - e isso ocorreu precisamente no terceiro colegial - eu sonhava em ser um escritor. Não pela fama nem pelo dinheiro (na verdade, o dinheiro até que seria bom rs), mas sim pela possibilidade de trabalhar com algo divertido. Isso mesmo, divertido, pois desde pequeno, eu me deleitava com a escrita e seus mistérios. Só que eu não escrevia senão quando era obrigado, e isso se deve à minha ferrenha auto-crítica - a qual eu chamo atualmente de "bom senso" ou "noção do ridículo" - de forma que apenas passei a esboçar alguma tentativa de escrita em meados do segundo colegial.

E foi assim que eu descobri que a escrita era uma habilidade com a qual eu simplesmente não havia nascido... Eu, como era de se esperar, só escrevia lixo, e nunca reunia coragem suficiente para acabar um texto começado.

Então, um certo dia, eu me enfureci... E deletei, em um rompante de fúria, toda a minha pasta de textos. Arquivo por arquivo, eu destruí implacavelmente aqueles embriões de futuras obras. Não restou nenhum... Ou, pelo menos, era o que eu achava.

Por algum motivo, este texto sobreviveu. Havia uma cópia dele em um disquete que encontrei tempos depois. E por esta estranha coincidência, decidi dar a ele o tratamento que neguei aos seus irmãos: esta seria minha primeira obra completa. Seu título, "Reflexões da Alma", reflete meu estado de espírito da época, bem como parte das conjecturas que ocupavam meu questinamento naquele período.

É por este motivo que ele me é muito caro. Não é um texto bom, longe disso... Mas é um marco. Foi o primeiro texto que eu comecei e terminei sem ser obrigado por alguma pressão externa. E por sua importância, digamos, "histórica", eu sequer ousei revisá-lo. Então, não se espantem com os erros de português ou incoerências lógicas: eu não ousaria mudá-lo. Afinal, ainda que seja um péssimo texto, emendá-lo seria como completar por mãos estranhas as pinceladas inacabadas da "Adoração dos Magos" do mestre DaVinci, um verdadeiro assassínio do espírito original da obra, e isto por um motivo simples:

Seu autor não mais caminha entre nós.



Apenas silêncio. A inaudível sinfonia da quietude regia o ambiente, que para ele era muito mais bela que qualquer composição de Beethoven ou Tchaikovsky. Na solidão de seu quarto, Leandro mastigava e digeria com apreço seus pensamentos. Sua imaginação divagava por outro universo, um universo que ele próprio criara, onde era ao mesmo tempo deus e diabo, criatura e criação. Um universo abstrato, sem conjunto algum de regras ou imposições; sem propriedades específicas ou leis pré-definidas. Mas principalmente sem os odiosos humanos. Malditos humanos!


Era assim que Leandro passava a maioria de suas tardes. Trancafiado, isolado no mundinho de seu quarto, longe da vilania das pessoas, longe da profusão de imbecilidade, longe de tudo. Não que fosse um garoto de poucos amigos; pelo contrário, era bem popular em sua escola, pois o achavam um parceiro agradável de conversas, além de ser considerado um cavalheiro pelas garotas e muito simpático pelos professores. Mas suas palavras eram vazias, desprovidas do mínimo significado. Idiotas! Só queria ser deixado em paz, e para isso dizia sempre o que os outros queriam ouvir. Evita problemas.

O ódio começou quando Leandro parou para pensar. Percebeu o quão vazias, mesquinhas e egoístas eram as pessoas. Percebeu que éramos como gado, ruminando sem questionar as migalhas esporádicas que nossos donos nos atiravam. Estes, grandes figurões da sociedade, se refestelavam as nossas custas, distorcendo a realidade, impondo regras e costumes. Por isso, Leandro odiava a tudo, a todos e a si mesmo.

Certa vez, Leandro estava voltando de sua escola. Naquele dia, o período letivo se estendera até tarde da noite, pois a escola promoveu diversas palestras sobre temas como drogas, preservação ambiental e outras coisas boçais. Estava a pé, pois sua bicicleta havia sido roubada algum tempo atrás.

O local onde Leandro morava se localizava praticamente na outra ponta da cidade. Fazia o caminho na escuridão da noite, sozinho, exatamente da maneira que gostava. Não tinha medo das ruas desertas, nem do olhar insinuante da Lua. Absorto em seus pensamentos, ele caminhava entorpecido rumo a sua casa.

Súbito, um grito. Atordoado pela abrupta interrupção de seus devaneios, Leandro se recompôs e procurou instintivamente sua origem. Outro grito, desta vez mais forte que o primeiro. Era de uma mulher, e vinha de um beco próximo.

Leandro correu como nunca havia corrido antes. Não pensava em nada, apenas corria. Seu corpo se tornara um mero escravo de seus instintos, e suas ações naquele momento eram puramente reacionárias.

Parou em frente ao beco, e finalmente viu quem estava emitindo os gritos. Era uma linda mulher, de contornos delicados, pele alva como a neve e olhos azuis como o céu. Logo a sua frente, um homem robusto a ameaçava com uma faca. Seu andar, trôpego, mostrava o estado alcoolizado do agressor. Ele desabotoava sua calça jeans com uma das mãos, enquanto fazia movimentos ameaçadores com a faca, deixando sua vítima acuada no canto do beco.

Em um ímpeto de coragem, Leandro correu para cima do homem e o derrubou com um chute. Ele caiu estatelado no chão, deixando cair sua faca no processo. Um tanto grogue pelo choque, o agressor se levanta, e cambaleia em direção ao garoto. Leandro lhe deu um chute no estômago, fazendo o homem cair gemendo de dor. Este reuniu o pouco de forças que lhe restava e fugiu apressado do lugar.

Ele o derrotara. Mesmo sendo apenas um franzino garoto de 16 anos, conseguiu evitar um estupro. Não sabia bem porque havia feito aquilo, se arriscado daquela maneira. Afinal, não se importava com a vida alheia. Talvez... Talvez aqueles olhos o tivessem hipnotizado. Os olhos... Eram magníficos. E finalmente, quando a mulher se levantou e sorriu em agradecimento, o espírito de Leandro se encheu de uma paz da qual ele nunca experimentara antes.

Por fim, ela falou:

— Ousaste arriscar tua vida por uma desconhecida sem nem ao menos ponderar sobre os riscos de teu ato. Por isso, sou muito agradecida.

Leandro permaneceu estático por alguns segundos. Não sabia o que dizer, o que fazer. Então, a mulher continuou:

— Por teu ato nobre, ganhaste o direito de ter um desejo realizado.

— Mas... quem é você? — Balbuciou Leandro, ainda atônito pela beleza de sua companhia.

— Para você, sou a essência dos ventos gélidos do norte e o calor das manhãs ensolaradas do sul. Sou aquela que é, foi e sempre será. Sou o tudo e o nada. Sou o começo, e o fim. Faz agora teu pedido, ó mortal, que tua súplica será realizada.

Leandro não entendia nada. Não sabia se ela falava através de metáforas, se era uma louca ou se ele mesmo estava sofrendo de delírios. Porém, em seu íntimo, sabia que imaginação alguma conceberia tamanha beleza, e que um corpo tão belo jamais poderia abrigar uma mente tão deturpada. Resolveu, então, aceitar a estranha oferta.

— Muito bem. Farei então meu pedido. Desejo que toda a raça humana seja varrida, destruída, erradicada! Que não sobre uma alma viva sequer sobre este planeta! Enterre todos os humanos e os resquícios de sua existência para sempre no esquecimento!


Para ler a segunda parte, clique aqui.

Autor: Jarbas Lima Alves da Silva