Bem-vindos, nobres espíritos!

Sintam-se em casa em minha humilde morada. Aqui vocês encontrarão alguns de meus loucos textos que ora lhes convido a ler e, se assim desejarem, comentar...

março 25, 2008

Hominem Ex Machina

Não se sintam ofendidos com generalizações... É apenas licença poética. No mais, não ficou bom, mas foi apenas um desabafo noturno - nem mais, nem menos que isso.









Já nasceu morto - ou quase.

Possuía mãos frias de cadáver, o olhar vidrado dos moribundos e o sangue gélido dos recém-descarnados. Gostava da noite, pois sua palidez natural o tornava arrisco aos caprichos solares. Era, em última análise, um vivo-morto.

Sua voz pusilânime reverberava em uma frequência de desprezo e dor. Os poucos que com ele conversavam saíam com a impressão de terem sentido o amargo gosto de ódio lentamente condensado por longos anos de solidão auto-imposta.

Não obstante, nos outros aspectos, era um garoto normal. Acordava todos os dias, ia à escola, almoçava, às vezes jantava e se escondia do mundo exterior tão rápido quanto podia no refúgio de seu quarto, sempre em busca do conforto aconchegante dos bits e bytes que o acolhiam com uma ternura quase maternal.

Ah, as maravilhas do cyberespaço! Aqui, ele realmente se sentia vivo. Na orgia tecnológica da Internet, seus delírios oníricos se tornavam sonhos lúcidos, e seu coração, normalmente um pedaço semi-estático de gelo, parecia finalmente palpitar com vivacidade.

Na verdade, não é como se ele não gostasse da vida lá fora... Não, de forma alguma. O problema sempre foram as pessoas. Estes odiosos seres com quem era forçado a coabitar neste plano tornavam a vida um martírio insuportavelmente tortuoso.

Suas conversas enfadonhas, seu comportamento dissimulado, suas preocupações mesquinhas e, principalmente, sua patológica hipocrisia as tornava pouco mais do que nacos de carne que fingem aos olhos do taciturno garoto.

Mas em seu recanto virtual, as máscaras – apetrechos de ostentação obrigatória no trato social – caíam com uma facilidade quase assustadora. Ali, ele finalmente pôde encontrar pessoas. Ali, ele conseguia enxergar além da armadura que as envolve pessoas em seus afazeres diários.

Ah, e como eram interessantes, as tais das pessoas! Cada uma, um emaranhado agradavelmente complexo de possibilidades e aspirações – um contraste absurdo com os simulacros padronizados que encontrava na vida cotidiana. Sonhos, sentimentos e, acima de tudo, personalidade existiam em profusão neste meio que curiosamente era proporcionado pela frieza de uma rede de máquina.

É claro que também havia falsidade... Sim, ela existia. Porém, o interessante é que não era a falsidade pré-combinada do seio social externo. Não... Pessoas eram falsas, verdade, mas o faziam por necessidades individuais, por motivações específicas de sua pessoa – e não por mera convenção social. O farsante virtual era, ao menos, uma pessoa com personalidade. E isto, ele valorizava muito.

Mas as necessidades daquilo que chamam de “vida real“ – que é, na sua visão, o que ocorre quando corpos se encontram e essências se afastam – clamou por parcelas cada vez maiores de sua atenção, até que ele, já adulto, se viu completamente englobado por este câncer que o atormentava, culminando seu martírio no momento de escolha da carreira que tomaria boa parte de seu tempo útil pelo resto de sua miserável vida.

Não demorou muito a se decidir, pois sua escolha lhe parecia óbvia: segundo consta, fora encontrado com um tiro na cabeça e um jovial sorriso no rosto – o único que já dera além dos smileys que distribuía em fóruns e messengers afora.


Autor: Jarbas Lima Alves da Silva



(O choro é sempre dos que ficam, nunca dos que se foram)

27 comentários:

Euzer Lopes disse...

É... Viver num universo paralelo pode ser cruel quando se percebe que o mundo real fica logo ali, e não se sabe como voltar a ele.

Henrique Felippe disse...

parece-me que este garoto vive num baile de máscaras, onde ele só consegue mostrar-se no interior do baile e, fora dele, coloca-se sua máscara... seu tempo de baile é intenso, sua vida lá fora ausente...

Nana Lopes disse...

Surreal Jarbinhas!!

R. Guimarães disse...

Respondendo ao seu comentário:
Não upei em nenhum lugar, só tenho mesmo pra arquivo, pois o trabalho já foi apresentado.
Bem, sobre seu blog, está com um visual muito bonito, não vou poder falar sobre os posts, pois estou sem tempo para ler, mas prometo de uma próxima vez.

http://romuloguimaraes.blogspot.com/

Igor Thiago disse...

Tadinho :)
Muitas pessoas levam mais em conta sua vida 'virtual' do que a real, se escondem atras do que dizem ser e não do que são, isso talvez as façam mais fracas, correndo e se escondendo no que pra elas é mais fácil, uma cybervida, onde elas são quem dizer ser e tenham medo de voltar à realidade.

Puts!

Johnny M. disse...

Vou dividir o comentário por tópicos:

1º - Isto é uma nova realidade criada a partir do avanço tecnológico. O cyberspaço está cada vez fazendo mais e mais parte das vidas das pessoas e dando a oportunidade para que aqueles que não gostam do convivio social, possam se refugiar em seus bunkers. Eu fiz uma postagem sobre isso: the geek way of life;

2º - Concordo com o Linus van Pelt, dos Peanuts: "Eu gosto da humanidade, só não suporto as pessoas";

3º - Esse smile capa do Watchman é muito foda.

Everaldo Ygor disse...

Olá...
Adoro esses desabafos em tom de Manifesto, Ex Machina, ótima essa expressão... Além de Deus, somos nós as maquinas atuais, distantes, frias e impessoais...
Ao construir mundos, você/eu - todos que escrevem - Dom ou Maldição - somos assim, criadores de mundos, poéticos ou não... Criamos nossa realidade! Solitarios demais. As mascaras, o ego, o Ser... Afinal quem não as tem? Sua crônica dos dias, é de todos nós, para ser apreciado e revisto várias vezes, retrato e auto-retrato da sociedade...
Abraços!
Everaldo Ygor
Visite:
http://outrasandancas.blogspot.com/

Nana Lopes disse...

Jarbas, voce pegou seus selinhos na postagem de domingo??

Martins disse...

Vc gosta mesmo de digitar!!!
Nossa, isso tudo nunca sairia da minha cabeça, vc estar de parabéns.
Escritor ousado!!!



http://cativagoogle.blogspot.com/

astronauta disse...

Belo blog , escreves maravilhosamente bem!!
sobre o ultimo post , um pouco dissi e o medo de se aventurr no mundo real ,pois e mais dificil se firmar no mundo virtual , para escrever , precisa ter cerebro , do q no nosso mundo real de musicas, filmes , pessoas e cultura ,enlatadas

Amanda Luiza disse...

Brigada pelo coment.
concordo com td q vc falou!
Estou pensando em relaçoes internacionais na uff, e no resto por falta de opção, Direito...
+ tarde venho aki comentar seu post.
;)

bjão

Dragus disse...

E assim morreu mais uma pessoa vítima de si mesmo.

Denise Machado disse...

Nossa! Sem folego, nenhum, sem ar. Nem sei como cheguei até o fim do texto.
Bom mesmo é saber o htpp de quem sabe escrever.

Lica disse...

Oi Lobo,
Muita gente vive assim...
eu preciso de internet , viciada mas não anoite , e consigo sobreviver sem ela, mas ha um tendencia de tudo ser pela net , pela questao meio ambiente msm , sem gastos de papeis , sacolas , etc...
Anônimo ou conhecido?? rs
será?
e como foi a pascoa , nao comi ovo muito assim , dor de dente ja viu , comi depois de q adiantou , rsrsrs

bjokas
http://deslica.blogspot.com/

Nanda Kiedis Declama disse...

Bom eu não espero sair desse poço, então minha última esperança é vc sair e jogar a corda.
Ás vezes o mundo virtual é mais real do que própio mundo real, eu sinceramente me sinto igual a vc ou melhor ao personagem do seu conto, só que ainda não cheguei ao extremo e do geito que sou medrosa acho que nunca chegarei.

Bjs

Rui Felipe disse...

Assim como as drogas, outras coisas podem parecer uma boa saída no início, mas depois revela-se uma prisão do que a que julgava estar...
A internet não foge disso. É uma ferramento boa, mas deve-se desenhar bem os limites, pra não ficar escravo deste mundo!!
Eu não entendo nada de selos rs
Como isso funciona??
E o que foi a identificação??
rs

Nanda kiedis disse...

Hey moço tem selinhos e memes p/ ti em meu blog, só não sei se vc vai gostar do meme.
bjs

Lalo Oliveira disse...

Vivo-morto é ótimo! rsrsrs
Quantos conheço... Tantos que vieram à tona, na minha lembrança, ao ler o texto!

Abraço!

Aa-dreano disse...

"Sua voz sepulcral ecoava como as proféticas trombetas do apocalipse em uma sinfonia de tragédia e dor."
Essa parte eu achei exagero o_o

No mais, parabéns, gostei muito mesmo. Você é muito bom ao criar essas imagens, mesmo em textos relativamente curtos.

Filipe Garcia disse...

Texto magnífico! Mas o que realmente me chamou a atenção foi o símbolo do Watchmen, graphic novel do Alan Moore.

Você conhec? Seria interessante ler algum texto seu sobre o Moore e os seus trabalhos.

Abraço!

Jéssica Torres disse...

Olha só quem tá de volta por aqui!! Admito que senti saudade, e que sempre que podia estava aqui lendo os teus textos! Que devo dizer estão cada vez melhores!
As vezes chega a assustar como existem pessoas que podem contruir seus proprios mundo de frente a tela de pc! Mesmo que fazer parte da humanidade e encenar o papel de ser um humano as vezes possa ser incrivelmente frustrante é preciso que haja uma linha que dá limites à "vida virtual".
Mas fico me perguntando quem seria quem nessa história!

Jéssica Torres disse...

Como sempre um ótimo comentário! E apesar do que pode ser demonstrado no texto eu não acredito que todo homem seja igual, e acredito sim que existem alguns que realmente podem se salvar e que não estão por ai apenas a procura de sexo! Agora te admiro ainda mais por saber que vc faz parte do grupo que se salva!
E por incrivel que pareça o texto não foi gerado a partir de uma desilução amorosa, pelos menos não atual, foi mais um resumo de experiencias vividas! Na verdade ainda estou namorando com o Otávio, e está tudo correndo nos conformes, indo muito bem!


Texto novo por lá!

Beijos

Vanessa disse...

Ás vezes,nos fechamos para o mundo
através de uma bolha;isso é fato.
Mas,não significa que seja ruim,é bom explorar os diversos espaços da
imaginação e colocá-los para fora.
Gostaria de parabenizá-lo e dizer que continue assim,seu blog está
super.
Bjos!

Zúnica disse...

Maravilhoso texto!

Discordo da maioria dos seus leitores. O foco do texto, na minha opinião, não é o mundo virtual, mas o desconforto de um ser cônscio da hipocrisia que o cerca, buscando um refúgio no meio de pessoas ilusórias, simulacros de pessoas que, apesar de serem ecos distorcidos das personalidades atrás das telas,não evidenciam sua condição humana.

Não se ver refletido na retina das pessoas que tanto despreza faz com que não precise encarar o fato de também ser uma pessoa, feito da mesma carne e sangue, preso ao mesmo mundo e sujeito às mesmas regras e escapismos sociais.

A inevitabilidade da condição social á qual o tempo lhe sujeita leva a uma fuga definitiva, mera extensão do que tinha no refúgio virtual.

A internet tem o mesmo papel, nesse caso, das drogas e álcool pra uns, das baladas, novelas e Big Brother pra outros.

No final, só nos resta anestesiar ou libertar. A personagem libertou-se, do modo mais desesperado e completo que poderia.

Quatro referências ás quais seu texto me remete: Admirável Mundo Novo, do Huxley ; 1984, do Orwell ; o conto O Homem da Cabeça de Papelão, de João do Rio ; Como me Tornei Estúpido, de Martin Page.

Parabéns! Vou ler alguns textos mais antigos e começar a acompanhar seu blog!

Grande abraço!

Anne Angelique Fry Beau Pré Choiseul disse...

Se este não está bom, imagino os que estão excelentes!

Me lembrou um pouco de Vincent, talvez.

Prazer, Angelique Choiseul

Minha Esperança disse...

DO AMOROSO ESQUECIMENTO

Eu agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?

Mario Quintana - Espelho Mágico

Tinker Bell. disse...

U-A-U!

Adorei o texto, e principlamente a forma como ele termina, foi bem honesto e real!
Parabéns, Beijos!