Bem-vindos, nobres espíritos!

Sintam-se em casa em minha humilde morada. Aqui vocês encontrarão alguns de meus loucos textos que ora lhes convido a ler e, se assim desejarem, comentar...

março 22, 2008

Conto Ainda Sem Título - Trecho inicial

Hoje lhes trago o trecho inicial de uma história que pretendo tornar um pouco maior do que os contos que escrevo atualmente. Planejo escrever umas 80 páginas, mas como ainda estou na segunda, é muito cedo para especulações deste porte.

É algo diferente do que eu costumo escrever. Nada de seres mitológicos ou linguagem da era vitoriana neste texto...

Por favor, me digam o que acharam deste começo. E eu já sei que não está nada excepcional... Mas está pelo menos "passável"?



- Merda de televisão!

Estas foram as últimas palavras que o moribundo televisor de James Lescook ouviu antes de dar seu extertor da morte – um longo silvo de estática, sucedido por um inconfundível som de circuitos queimados.

- James, você é um fodido, um fodido do caralho! – resmungou.

E ele estava certo... Nos últimos 18 meses, o azarado rapaz conseguiu firmar um novo recorde em demissões: foram 10 tentativas mal-sucedidas de adquirir estabilidade financeira, uma vida decente e, quem sabe, cuecas novas. Agora, tudo o que ele tinha era um apartamento mofado no subúrbio com 4 meses de atraso no aluguel, algumas garrafas de whisky barato – estando a maioria vazia e uma delas, ainda lacrada, preenchida com uma mistura de álcool de cozinha com corante – uma televisão quebrada e nenhuma roupa limpa o suficiente para enfrentar outra entrevista de emprego. Ah, sim, e cuecas. Muitas cuecas. Todas no mínimo um número menor do que o dele.

James engordou. Ele percebeu isso quando suas latas de cerveja e copos de whisky começaram a não cair de sua barriga mesmo sem apoio. “Ótimo, economizo o dinheiro da mesinha”, pensava ele. Mas a verdade é que seu novo peso lhe trouxe alguns incômodos, como o fato de suas cuecas terem magicamente se tornado pequenas demais para que exerçam sua função com um mínimo de conforto.

A nova dieta de James, baseada em álcool e, ocasionalmente, pão com mortadela e salgados baratos de butecos, foi a responsável pela mudança. Ele já não tinha mais esperança alguma de que arranjaria um emprego, e, desde então, desistiu de tudo. “A esperança é a única que morre” era seu novo lema, e ele o recitava com escárnio quando uma gota ocasional de fé em sua capacidade despontava no lúgubre deserto de desespero em que ele se perdera.

A perda da televisão, último alento em um mundo de loucura plena, o atingiu como uma forte paulada na cabeça: toda insanidade reprimida foi impelida para fora de sua desordenada mente, aflorando em jorros incontroláveis sobre sua já abalada lucidez. Ele se sentia como se o Universo tivesse pregado nele sua última e mais diabólica peça.

Diante deste infortúnio que se chamava vida, ele fez a única coisa que parecia sensata no momento: ele riu. Ele riu alto e ruidosamente. Riu como se a piada do século tivesse sido contada a ele pelo maior piadista do milênio. Riu como se sua vida dependesse disso – e talvez realmente dependesse.

Era isso! Tudo estava claro agora! James se sentia nas nuvens, como um condenado recém-liberto de seus grilhões. Se sentia como um pássaro, voando mais alto que qualquer homem já voou – e isto, obviamente, não se refere à uma simples questão de altura, mas sim de liberdade. Se sentia, ainda que isso seja um tanto paradoxal – mas apenas um tanto - plenamente são pela primeira vez em sua vida.

- James, você é sortudo de merda!

Não havia outra coisa a fazer. Claro... Mas era justamente este o motivo que o autorizava a fazer qualquer coisa! A absoluta falta de opções possui um efeito revelador nas pessoas: ela desvenda caminhos antes ocultos sob a névoa de outras escolhas. Alguns, é certo, encontram esta opção no cano de uma arma. A maioria, talvez. Mas não James... Ele era um fodido de merda, verdade, mas não daria ao Universo o gostinho de rir por último... Não. Esse privilégio seria dele!

- Esse lugar me deprime. Que se foda, eu vou embora!

E ele realmente foi, deixando tudo para trás, exceto o que conseguiu carregar consigo em uma pequena mochila surrada: seu inseparável mp3 player, alguns livros que nunca chegou a terminar de ler, um pequeno bloco de anotações, um barbeador elétrico, um estojo com quinquilharias sortidas, seu canivete suíço – resquício de sua época de escoteiro – uma muda de roupa e um óculos estilo aviador que ele ganhara há muito tempo atrás de sua ex-namorada, Barbara. Não levou muita coisa, apenas o estritamente necessário.

James trancou tudo e, no momento em que se preparava para abandonar o lugar de vez, viu uma garrafa de whisky lacrada, solitária, quase implorando para que ele a levasse junto.

- Calma, neném, você vem com o papai.

E, acomodando a garrafa cuidadosamente em sua mochila, partiu para sempre do último lugar que ele chegou a chamar de um “lar” em toda sua vida.

Ah, liberdade! Era por isso que ele ansiava há tempos sem saber! O sentimento que o acometia era indescritível em sua fonte, mas tinha um “quê” de liberdade condicional após 20 anos de cárcere, aliada àquilo que uma criança sente ao ganhar um brinquedo novo que nenhum de seus amigos possui: ele se sentia vivo, possivelmente pela primeira vez em sua vida.

Ele deu uma última olhada para aquilo que se tornara sua prisão nos últimos anos. Um afluxo de memórias passou rapidamente pelos seus olhos, da mesma maneira como um moribundo revê sua vida minutos antes de seu derradeiro suspiro: o primeiro salário e sua recém-conquistada independência financeira, a mudança da casa dos pais, seu primeiro encontro com Barbara, a primeira noite juntos, a primeira demissão, as brigas constantes com sua namorada, o acidente de carro...

Aquele lugar evocava todo tipo lembranças guardadas há muito em sua cabeça, pois sua história estava ali, impregnada naquelas minúsculas quatro paredes. Ele passou bons momentos naquele apartamento, especialmente com sua namorada Barbara... Ex-namorada. Não era raro ele esquecer que terminaram. Às vezes, ele esperava em vão que sua namorada o retirasse da cama à força de beijos e carinhos para enfrentar mais um dia estafante de trabalho. Mas isso era passado... Suas recordações mais recentes eram um punhado de derrotas e lamúrias.

- Espero que você se exploda! – disse James ao apartamento.


Era seu jeito carinhoso de se despedir de seu antigo lar. Pelo menos, não teria que se preocupar com o aluguel... Ele imaginava a cara do sr. Lee quando descobrisse que ele deu no pé sem lhe dar um tostão. Mas nada disso importava. O mundo era uma caixa de surpresas, e ele, assim como Pandora, havia apenas começado a desvendar seus mais profundos mistérios...
Mas antes de poder gozar de sua nova vida, o mais importante era encher sua barriga – de preferência com algo não alcoólico dessa vez.

(A estrada de uma nova vida aguarda a todos que ousarem por ela se aventurar)

23 comentários:

Paty Tiemi disse...

É impressão minha ou você é um pouco revoltada...?

Esfinge disse...

Pleo menos ele ainda tinha whisky...e quanto a mudar de casa acho melhor mesmo, novos ares e uma nova vida, aguardarei os novos capítulos

abutre236 disse...

Parece ser bem interessante a história. Mas o que eu mais gostei é a linguagem bem informal, isso pra mim facilita demais uma leitura.

vlew.

Nana Lopes disse...

Jarbinhas, gostei mais desse seu novo estilo. Flui bem, a linguagem esta mais leve ,menos tensa,sem perder a qualidade no vocabulario.
è um texto que deixa sua jovialidade mais em evidência. O outro estilo te "envelhecia",rss.Gostei pacas. "Pacas ´é uma gira idosa,kkkkk"
Boa Páscoa e ganhei muito chocolate sim,rs. E vc??

Danilo Moreira disse...

Texto bacana. Tem horas q a gente se sente meio assim e dá mesmo vontade de jogar tudo pro alto e ir embora.

Voltarei aqui para conferir os proximos capítulos, e mais do que isso, te desejo boa sorte no processo de criação de sua história.

Abçs!!!!

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http://emlinhas.blogspot.com/

EM LINHAS...
Quando as palavras se tornam o nosso mais precioso divã.

Novo texto: Veias Nocivas
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poiszé disse...

wlw pela dica, vou procuarar ler o livro siim,

wlw
abraços!

Tinker Bell. disse...

"Não havia outra coisa a fazer. Claro... Mas era justamente este o motivo que o autorizava a fazer qualquer coisa! A absoluta falta de opções possui um efeito revelador nas pessoas: ela desvenda caminhos antes ocultos sob a névoa de outras escolhas. Alguns, é certo, encontram esta opção no cano de uma arma. A maioria, talvez. Mas não James... Ele era um fodido de merda, verdade, mas não daria ao Universo o gostinho de rir por último... Não. Esse privilégio seria dele!"


Adorei o começo desse conto e pretendo lê-lo todo, mas esse trecho em especial foi o que mais eu apreciei, me fez refletir e acho que também chamou atenção da maioria que o leu.

Parabéns!
Beijos @:

Nana Lopes disse...

UM velho de 23 anos??
Eu sou uma menina de 44,kkkkkkkkkkkkkkk
Uma coisa estranha blogueiro naop gostar de ler ne?
Por que não faz um outro blog so para textos longos e coloca o nome do tipo " somente para quem gosta de ler",kkkkkkkkkkkkk.
Beijokas e nao desista de escrever!

Wander Veroni disse...

Vc escreve mto bem e a experiência do blog já o credencia como escritor. Já vim aqui outras vezes e cada vez me surpreendo com a profundidade na qual vc humaniza as suas personagens. Já é um estilo próprio que merece ser reverenciado!

Abraço,

=]

Iza disse...

Quem sou eu para avaliar o texto de um futuro gênio da escrita?
...
Vou acompanhar a leitura pelo prazer que tenho ao ler seus textos. Tomara pudesse me expressar desta forma...
...
A literatura é uma arte acredito que as pessoas já nascem com este dom, o dom da escrita... tu és um deles
...
O prêmio lá no blog é para equilibrar este estado de angústia, que logo logo passa mas, enquanto dura é altamente corrosivo para o ser humano.
...
Como já dissestes devemos celebrar a vida.
...
Beijos!

Nana Lopes disse...

Presentinhos pra voce la no meu blog

bee disse...

conto legal :D

Tiago Castelo disse...

Logo de início, venho para agradecer à seu comentário no meu blog. Segundo... Bem, já sou um leitor do seu blog há uns dias, acho que, talvez, você vá lembrar-se de mim ao entrar no meu blog pessoal ( primeiro criado por mim):
http://tiagocastelo.zip.net
Enfim, obrigado pelo comentário e até a próxima. Também prometo que, assim que restar tempo, dou uma passadinha no seu blog - como de costume - e deixo meus depoimentos sobre seus textos.

Abraços!
Sucesso!

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http://tiagocastelo-contos.blogspot.com

- Priih disse...

Nossa vc escreve muito bem mesmo Jarbas! Sempre quis ser escritora, mas analisando o seu texto agora, já vi que tenho muito o que aprender ainda :)
E acredite, eu passei por essa fase de revolta, querer liberdade, paz, e um pouco de compreensão dos outros..até fugi de casa! Mas isso é outra história, e tbm já passou :)
Parabéns pelo seu blog, vc é um ótimo escritor (;

- beijos :*

se interessar, passa no meu: http://blueblossoms.sokissme.net/
é um estilo diferente do seu, mas fica o link ^^

Tony Sena disse...

Kara tah muito 10 seu blog

primeiro pela interfaçe!!!

e seu texto esta muito bem

expresso ... parabens...

gostei msm!!! abraços!!1

Gustavo Barud disse...

Po, muito bom, mas acho que dependendo do público-alvo, deveria reduzir o número de palavrões e se concentrar mais no contexto e no valor de cada pedaço da historia...
Mas enfim, em si, o texto é muito bom... um tanto revoltado... mas retrata a realidade...
Deixo o convite para uma visita no meu blog..
www.poesiasdolennon.blogspot.com

Um inútil! disse...

Show, gostei desses trechos!

James, você é um fodido, um fodido do caralho! – resmungou

James, você é merda! (acho que é assim)

hehe

Muito bom, agora só faltam 79 paginas! hehe

Abraço rapaz e boa sorte ai!!

www.kbite.blogspot.com

Tom disse...

Achei um texto com uma linguagem informal e bem realística, está aprovado, muito bom!

www.indicacao.wordpress.com

Edu disse...

Parabéns Jarbas!!!

Está muito legal. Agora quero saber o que será do James, o livre. rsrsr... Não vá prostituí-lo!!!

AbraçO!
Sucesso!

ED CAVALCANTE disse...

SEU TEXTO É BEM ESCRITO, MAS TEM UM TOM MUITO ACENTUADO DE REVOLTA. NOTE, NÃO FALO DO CONTEÚDO E SIM DAS ENTRELINHAS. ISSO PARECE UM POUCO FORÇADO!

Karla Gracielle Peres disse...

Coitado do James, mas o texto é muito bom. Tem uma boa trama.

Maria Regina disse...

Realmente a vida dá sempre uma nova chance de liberdade e escolha, é ousar, e ver...
Bem, você acertou , meu amigo, ando ocupadíssima ultimante, e a inspiração sumiu um pouco, mas já, já, ela volta, minha companheira fiel não me abandona nunca...
Ah! Aliás você não é a primeira pessoa que fala que meu estilo é suave... Eu diria feminino.
Beijos
E não páre de escrever, está muito bom!

Zúnica disse...

Uau, é uma guinada e tanto no seu estilo!

Gostei do estilo dos textos que li anteriormente, mas este é bastante mais maduro, mais carnal. Você conseguiu manter a sua tradicional imerssão reflexiva, a exaltação da loucura, da dúvida, da solidão, mas desta vez com os pés mais no chão.

Você externa uma revolta, sim, mas uma revolta para com o comodismo, com a hipocrisia, com os valores sociais pré-estabelecidos, e isso fica muito mais palpável com um estilo mais seco e personagens mais humanos do que com o argumento lúdico que é seu habitual. E os detalhes que beiarm entre o decadente e o humorístico, como as cuecas apertadas, dão o toque sarcásticoq eu faz a gente riri da desgraça alhiea – ou da nossa própria desgraça.

A única ressalva que eu faria, se me permite, é com relação ao nome da personagem. O nome representa muito do ambiente em que o leitor irá se situar, e “James Lescoock” passa um requinte desnecessário, um tanto artificial, como se fosse mais uma personagem de video-game ou RPG adolescente. Se a história se passar em uma Chicago fumacenta, até funciona, mas não acredito que combine com sanduíches de salgados baratos de butecos.

O conto começou muito bom. Espero ansioso a continuação.

Ah, e á propósito, quando te disserem pra pensar no “público-alvo”, cuspa, xingue e mande á merda. Você não precisa se regular aos leitores, deve ser fiél ao que sua escrita lhe pede. Sempre existirão leitores para textos bem escritos, sejam com ou sem palavrões. Paute-se pela qualidade e pelo amor ao que você faz. Afinal, você é um escritor, e não uma prostituta.

Grande abraço!