Bem-vindos, nobres espíritos!

Sintam-se em casa em minha humilde morada. Aqui vocês encontrarão alguns de meus loucos textos que ora lhes convido a ler e, se assim desejarem, comentar...

janeiro 15, 2008

O Lobo e o Camponês

Esta é uma pequena história que escrevi em um momento de íntima reflexão. No entanto, não confidenciarei à vocês qual é a moral desta história, porque a mensagem pouco importa, e sim, a compreensão que vocês, leitores, depreendem deste simplório texto. E no fim das contas, a moral do leitor é a única válida para qualquer obra...


Diz-se que um jovem camponês, desgostoso com a vida em sociedade, decidiu obedecer seu instinto e dali partir. Juntou, então, os poucos bens que lhe pertenciam, e abandonou sua vila, rumando em direção à floresta.

O camponês caminhou, caminhou e caminhou... Mas não conseguia encontrar um local adequado para habitar. Decidiu, por fim, que caminharia até que seu coração lhe mandasse parar.

Por fim, o jovem se viu às margens de um pequeno, porém belo riacho, onde decidiu parar para descansar. E foi ao tomar um gole da água límpida e cristalina daquele córrego que seu coração finalmente quebrou o silêncio: este seria seu novo lar.

Se acomodou, então, o camponês em seu novo lar, e ali passou alguns dias em paz. “Não mais verei a face de nenhum ser vivo”, pensava consigo. “Aqui, não mais serei incomodado”.

No entanto, por ocasião do destino, o camponês encontrou um lobo vagando por seu novo lar. Irritado com a intrusão, o camponês disse ao lobo:

- Criatura vil, vai-te embora daqui! Este é meu lar, e tu aqui não ficarás!


Ao passo que o lobo respondeu:

- Humano, resido nesta floresta desde tempos imemoriais. Com tua arrogância, não apenas turba minha posse, mas ainda deseja me expulsar de meu lar?

- Se esta é realmente tua morada, onde está tua alcatéia?

- Eu, assim como tu, ando só. Tenho tanto em comum com meus pares quanto tendes com os teus.

E o humano nada mais disse, nem o lobo retrucou. E ambos passaram a conviver, muito embora não trocassem uma palavra sequer. Porém, vez ou outra a comida preparada pelo camponês se revelava além de suas necessidades. Quando isto acontecia, ele deixava parte de seu alimento para o lobo. O lupino, por sua vez, montava guarda noturna para proteger o jovem humano, pois seus instintos detectavam a menor movimentação mesmo durante o sono. E não tardou até que estas atividades de ambos se tornassem hábito.

Um certo dia, o camponês cuidava de seus afazeres matinais. Sua rotina, no entanto, foi interrompida pelo som estridente do ganido de um animal nas proximidades. Imediatamente, o humano correu de encontro ao som, e viu que o lobo havia sido ferido por um enorme urso. Sem considerar o perigo de sua atitude, o camponês sacou sua faca e correu em direção ao agressor, cravando-a em seu ombro. O urso reagiu rasgando-lhe a carne com suas afiadas garras, mas se descuidou com este ataque em relação ao lobo, o qual aproveitou a brecha para fincar suas presas no pescoço do urso. Mortalmente ferido, o urso tombou, e após um derradeiro suspiro, pereceu. Então, o humano perguntou ao lobo:

- Lobo! Estais bem?- Porque te preocupas, humano? Não sou para ti mais que um animal selvagem.

- Não é verdade... Tu bem sabes que temos mais em comum do que com nossos pares. Sou tão humano quanto tu és lobo.

- Ainda assim, somos diferentes. E tu bem sabes que juntos não podemos conviver, pois tal é o destino dos homens e lobos: o eterno ódio e a desconfiança impera entre nossas raças.

- E importa nossa natureza mais do que nossos sentimentos?

- Tu viste o que aconteceu, humano. Nossa convivência apenas trouxe dor e sofrimento, e por nossa ventura, ambos estamos feridos. Tu podias, com teu intelecto, fugir do urso ou ludibriá-lo com um estratagema, e eu poderia eventualmente derrubá-lo. O Destino é um senhor terrível, e a ele devemos nos curvar...

- Maldito seja este Destino! Quando acredito encontrar um irmão, vejo-me impossibilitado de ser feliz em sua companhia!

- E irmãos seremos, até o fim dos tempos. Adeus...


E com estas palavras, o lobo partiu. E nunca mais se viram, embora um nunca tenha esquecido completamente do outro.

Autor: Jarbas Lima Alves da Silva

(Foto tirada de de um homem com um lobo no Alaska)

25 comentários:

tania disse...

Sábio texto! Eis o motivo de minha desesperança! No conto, eram um homem e um lobo. Porém, na sociedade atual, nem dois seres humanos conseguem conviver pacificamente por mais tempo do q seria com um lobo.

abs

Marcelo disse...

pena q o lobo nao entendeu q poderia ter morrido se o humano nao entrasse na luta. comprar a briga de outro eh q nos faz amigos e irmaos.

ou eu posso estar errado

artness disse...

Obrigada pelo comentário e vc me deu um insight: sim, o título foi desse livro, mas o li há uns 3anos acho. Muito bom o livro, mas eu gosto de intercalar com outros pq ler um desse de uma vez tem que amar muito o assunto. Com esse tipo de comentario, até sou motivada a continuar, quero escrever sobre "O desenvolvimento oraganizado" -continuação desse. Estava triste pq me esforço, nem gosto do assunto, apenas acho importante demais pra ser ignorado, e escrever pra ninguém ler dá um desânimo...

Na verdade quando dei o título, sabia que era de algo conhecido mas não pensei no livro, valeu por me lembrar. É o que vivemos e o livro expressa com sutilezas e um estilo fantástico de expor problemas complexos de forma clara. Mas não queira lê-lo em dois dias, assista "o show de truman", "matrix", pra compensar quando cansar,hehe.

talvez este link te ajude:
http://www.geocities.com/jneves_2000/debord.htm

Boa sorte, bjinhos!
tania

J.J. Nunes disse...

O texto cai como uma luva para os tempos atuais, a humanidade vivencia o que muitos chamam de fim dos tempos, seu texto e bem ficado tem uma otima conclusao. abraços!

ramon disse...

achei ambos um pouco tolos.. pois queriam seguir seus caminhos sós e moraram juntos... assim foi melhor.....

ótimo texto! parabéns pelo blog!!

LIM disse...

O destino nos curva, sem dúvida.
E o tempo também.

Um abraço

LIM

http://lilianmello.blogspot.com

Samuel Junior disse...

O texto nos remete a uma reflexão sobre as dificuldades de convivência.
O convívio entre os seres humanos numa sociedade onde reina a competição. A convivência dos homens com a natureza... Parabéns!

Sidcafeína disse...

Olá,

obrigado pela visita e pelos elogios, podem não parecer mas são importantes.
Também achei muito legal seu blog, com ar meio de pergaminho. Esse post também é bastante interessante, com os lobos também podemos aprender muito sobre organização.
Também vou linkar seu blog.

Abraço
SidCafeina

M. disse...

Olá Jarbas!
Tudo bom?
Você pediu no blog para que eu deixasse a interpretação do “Quadradear”. Eis:

Há um tempo atrás, eu olhei para dois quadrados no chão. Fiquei tempos olhando, refletindo sobre o cotidiano. Estava na sala de aula, com o caderno aberto e minha lapiseira sobre ele. Olhei para a folha e escrevi apenas ‘Quadro por quadro’.
Pensei que isso poderia resultar em alguns poucos versos.
Depois, utilizei o eco, em ‘Quadro por quadro/ quadrante quadrado”; O quadrante é em relação ao tempo, a mudança do tempo.
E quadrante quadrado é pelo fato dos quadros quadrados do começo do poema (um pouco de geometria talvez)
Quadradear foi o neologismo que eu fiz, pois precisava de um verbo que encaixasse no texto, mas não achava nenhum. Quadradear veio como uma luva, serviu para que as pessoas que lessem o poema pudessem interpretar do jeito correto, que está no interior de cada uma.
“Quadradeando a questão que quebra na queda”
É apenas quando você muda de opinião, de vida, de amor, de qualquer coisa, a ‘questão’ (sua antiga opinião a respeito do determinado assunto) se desfaz e você monta outra, baseado no novo.
Quebra-vento e quebra-mola são dois obstáculos que representam todos os outros que cada um passa no decorrer da vida.
‘Quebra’, no final é a repetição do mesmo ato (da mudança de opinião); e queda, apenas a continuação da quebra: Quebra, cai, e monta-se o novo (você nunca muda as coisas na vida apenas uma vez).

Espero ter esclarecido.
Obrigada pela visita!
Um abraço!

[comentarei sobre o post daqui a pouco]

Dorian disse...

Moral da história: O urso entrou só para atrapalhar!!!

Adilson Jorge disse...

Belo texto. Lembrei (foi inevitável) a conversa da raposa com o pequeno príncipe ... fantásticamente narrada pelo Saint-Exupery.

Parabéns

Abraços
www.blogonews.blogspot.com

Osmar Portilho disse...

mto bom! não conhecia teu blog...farei mais visitas...

Arthurius Maximus disse...

Uma reflexão profunda sobre os relacionamentos humanos. A dureza da situação, a incompreensão e as diferenças podem agir como aglutinadores mais do que como fatores de segregação.

Victor Oliveira disse...

Muito bom o texto.
Realmente quando nos identificamos com alguém não há raça ou diferença q nos faça, n querer o bem dele. Mesmo as vezes n sendo possivel o convivio contínuo

ISABELLA KRHAUS disse...

Veja os videos do Klaus Nomi, vale a pena. parece um som estrnho a principio mas é extremamente viciante rsrsrsrsrs

César Fernández disse...

que coisa linda e cheia de profundidade :)

halee disse...

Legal teu texto,mas gostei do post sobre o big brother,o começo ficou mto engraçado...
Lá nos Irmãos Brain (não sei se você acessa),eles fizeram um desenho muito bom e verossímil sobre o BBB...passa lá :

http://www.irmaosbrain.com/2008/01/09/big-brother-brasil/

Abraço!

Jefferson Barbosa disse...

Pra mim é apenas uma salientação do quanto o destino pode ser perverso.

Emanoel Ferraz disse...

Sorte que o homem interviu senão o lobo teria morrido...

Caroline disse...

E talvez tenha sido dessa linha de amizade homem X lobo, que surgiu a domesticação dos mesmos... hj qse chamados cachorros. Não sei se to viajando muito, mas, não seria o Husky uma proximidade disso?

Bom, belo texto, profundo, reflexivo. Tu és um filosofo! bjs

Fah disse...

Ae... respondendo ao topico do orkut... belo blog

M. disse...

Muito obrigada pelo comentário! Que bom que gostou da explicação. rs. =]

mais tarde eu juuro que vou comentar no seu blog. rs. (o dia está movimentado, não dá pra concentrar ainda)

um abraço!

The End's disse...

E aí kra, td bem?
Qto à sua pergunta. Não, toda parte da história não terá o final, a galera me manda e uma comissão julgará o mais adequado.. aí sim, vem a segunda parte conforme o final eleito.
e assim sucessivamente..

espero que vc participe.. entre na comunidade do orkut para manter-se informado.

Proponho uma parceria entre o seu blog e o The End's...
topas??

Abraço

Iaiá disse...

mt bom esse conto. me lebrou a passagem do Pequeno Príncipe com a Raposa.

Quanto à moral da história, acho que cada um consegue tirar a sua própria de acordo com suas experiências de vida. Eu peguei a minha.

bjo

Orfanik K. disse...

texto admirável, companheiro...

é um tapa na nossa cara quanto à nossa convivência com quem é tão diferente de nós!



http://www.contos-de-aneras.blogspot.com/