Bem-vindos, nobres espíritos!

Sintam-se em casa em minha humilde morada. Aqui vocês encontrarão alguns de meus loucos textos que ora lhes convido a ler e, se assim desejarem, comentar...

novembro 22, 2008

Vícios (Versão Beta)

Este é um texto beta... Beta porque padece de um mal: a má redação está ofuscando seu verdadeiro significado. De qualquer forma, submeto-o ao julgamento de vocês...


- Eu te amo, Osmar!
- E eu a ti, Odete!

E se beijaram como dois colegiais apaixonados, suas línguas se digladiando como dois moluscos em fúria.

- Ah, me desculpe, Odete, mas preciso ir, tenho horário...
- E amanhã, volta?
- Não sei, não sei... Vamos ver. – Respondeu seco, já se afastando em direção ao ponto de ônibus.

Desceu no lugar de sempre, em frente ao boteco do Osias, um refúgio onde os homens casados podiam conversar sem a fiscalização de suas patroas. Nenhuma delas arriscaria ser vista em um local tão rústico - pra dizer o mínimo - quanto aquele.

Sempre depois de um encontro Osmar parava ali pra aproveitar o gosto latente do mel labial das moçoilas como complemento ao sabor asséptico da cachaça.

- Olha lá, olha lá! É o casanova do Osmar, todo cheio de marra. – comentou alguém do balcão.



- É, rapaz... Parece que foi mais uma pra coleção dele. – respondeu outro.

Como parte do ritual, Osmar se aproximou do sagrado altar etílico e deu início à oração:

- Osias, desce uma da boa! Nada de cachaça barata, só coisa fina!
- Quem foi a vítima? – Respondeu o dono enquanto servia um copo cheio de Salinas no balcão.


- Ah, não importa, não importa. Já cansei dela.
- Você sempre vem com a mesma história... Larga todas depois do primeiro beijo! Como é que vai arrumar uma moça séria se continuar assim?
- Deixe estar, deixe estar. Não sirvo mesmo pra vida de casado.

Era sempre assim. Todos conheciam a rotina do Osmar: ele saía com alguma garota que conhecera, beijava a moça e corria para o bar pra tomar uns tragos e bater papo com os conhecidos, repetindo o ciclo com outra garota.

Já fazia isso há treze anos, mas não levava nenhuma de suas conquistas para a cama. Dizia a quem perguntasse que o sexo de nada valia perto da pureza do beijo de uma mulher.

Até que, um certo dia, começou a sentir uns sintomas estranhos: uma fraqueza aqui, um inchaço nos braços acolá, tudo isso salpicado por uma boa dose de tremeliques ocasionais e sangramento nas gengivas. Resolveu se consultar com o único médico dali, uma espécie de faz tudo daquela cidadezinha. Foi lá que recebeu o infeliz diagnóstico:

- Senhor Osmar, seu fígado está com cirrose. Vai ter que parar de beber. – Alertou o doutor com o mesmo tom monofônico de voz que usava para dizer tanto “Parabéns, é uma menina” quanto “Não se preocupe, é um exame rápido, indolor e meus dedos são pequenos”.
- Parar de beber...? – Osmar franziu o cenho, colocou a mão no queixo e pensou por um minuto, talvez o mais longo de sua vida.

Finalmente, ele respondeu:- Bom, acho que não tem problema. Nem gosto tanto assim de beber.

Parou mesmo. Osmar não colocava uma gota de álcool na boca mesmo passados 15 dias da consulta.Nesse meio tempo, encontrou uma nova paquera. Conheceu uma mulher de seus 40 e tantos anos, coroa bem conservada, ousada, decidida, muito mais racional que emotiva... Bem do jeito que ele gostava.

Levou a mulher pra almoçar em um restaurante argentino e dançou tango com ela até não agüentar mais.

Não demorou até que suas línguas se unissem em uma dança própria, tão erótica quanto os movimentos libidinosos das dançarinas do ventre.

Então, como sempre fazia, o malandro deu uma desculpa e escapuliu ligeiro dali.

Sentia-se mal. Entrou ofegante no mesmo ônibus de sempre e desceu em frente ao bar, seu antigo templo. Sentia uma vontade incontrolável de se juntar aos fiéis, mas estava proibido de provar a hóstia. Havia sido excomungado daquela igreja.

Deu uma boa olhada nos seus companheiros de copo, e voltou cabisbaixo para casa.

Chegou em seu lar sofrendo de um forte enjôo. Correu até o banheiro, lavou a boca com uma boa dose de sabão e, sem conseguir controlar o conteúdo do seu estômago, vomitou o almoço caro que pagou para sua ex-paquera.

Ele se sentia vazio...


Depois disso, nunca mais apareceu. Alguns amigos do bar encontraram-no em outra cidade. Dizem eles que, após avistá-los, o ex-malandro saía correndo como quem viu um fantasma. Um deles chegou até a comentar que avistou o sujeito vestindo uma batina, mas quem seria louco o suficiente para confiar nas palavras de um bohêmio?


Autor: Jarbas Lima Alves da Silva

(Como irá se encontrar aquele que vive fugindo de si próprio?)

novembro 12, 2008

Um Espetáculo de Vida

Nasceu inocente como todas as crianças livres das máculas do mundo.

Cresceu otimista, alimentando seu sentimento com as chamas passionais da esperança.

Entrou na faculdade, e com isso recebeu o choque de realidade: viu, pela primeira vez, a mecânica do espetáculo pelos bastidores.

Resignado, se tornou realista - homem mais prático, mas nem por isso menos combativo.

Em pouco tempo se cansou, seus esforços obstaculizados pelo roteiro imutável dos diretores.

Tornou-se, então, um niilista, encarnando seu personagem medíocre com desprezo até o último ato.


Em sua derradeira cena, quase conseguia escutar os efusivos aplausos de uma platéia sádica que nunca chegou a conhecer...

FIM!

Autor: Jarbas Lima Alves da Silva


(A ilusão é doce enquanto dela não tomamos conta)

novembro 04, 2008

Vende-se

Um poema em homenagem à minha musa inspiradora.




Vendo sonhos e promessas, preparados em banho-maria e congelados no freezer da viabilidade.

Vendo a esperança de um dia melhor, e envio de brinde a coragem para alcançá-lo.

Vendo a sabedoria de um quarto de vida, com desconto se levar junto a imaturidade que a acompanha.

Vendo minha força e meu suor, tratar comigo mesmo.

Vendo um coração seminovo com pouco uso, porém partido por um choque contra a realidade – bom para peças de reposição.

Vendo uma alma inocente e com pouca quilometragem – frete grátis.



Vendo tudo, tudo o que quiseres

Tudo, menos meu amor por ti...


Autor: Jarbas Lima Alves da Silva

(Psique revivida pelo beijo de Eros, por Antonio Canova)

outubro 24, 2008

Sem Nome

Mais um poema que dediquei, com carinho, à minha musa, que permanecerá inominada.


Perdido na imensidão de teu ser
Me afogo em ternuras distantes
Naufrago no oceano galante
Porém sem jamais esquecer
O suplício constante
Que é te querer

Mas persisto na nobre empreitada
Pois a vida sem você
Não vale nada...

Autor: Jarbas Lima Alves da Silva


(Não pode pretender conquistar a sereia o covarde que reluta em arrisca a vida)

outubro 16, 2008

Sonho de uma Vida Real

Mais um estranho pesadelo. Já era o segundo só esta semana, e ela mal havia começado.


Comecei minha jornada onírica em meio a uma floresta de concreto, ornamentada com um padrão repetitivo de cores frias, quase mortas. Enormes àrvores ocas de argamassa e aço se erguiam à minha volta - um lembrete de minha própria insignificância dentro daquele reino.

Andei durante algum tempo, logo me cansando pela inalação da névoa densa que me cercava – um ar viscoso e pegajoso, quase sólido e de cor escura, que ao aspirar causava grande incômodo às narinas em troca de pouco sustento para os pulmões.

Parei ao encontrar um aglomerado de macacos sem pêlo, todos catatônicos, entorpecidos por algum motivo obscuro. O silêncio só era quebrado pela balbúrdia de um contínuo estouro de enormes e estranhos animais nas cercanias.

Então, um destes animais – desprovido de pelagem e com uma carapaça dura como metal - parou diante do grupo, aparentemente convidando-nos a nos deixar levar por ele. Nos acomodamos em seu lombo onde já aguardavam outros destes apáticos símios, e o estranho ser partiu.

Paramos em uma gigantesca árvore de concreto oca, onde rapidamente entrei com meus companheiros babuínos.

Fica difícil, após este ponto, relembrar exatamente dos eventos que se sucederam – afinal, a passagem do tempo não segue uma estrutura fixa no reino de Morfeu – mas sei, de uma maneira geral, que esta foi a pior parte do sonho: junto com os macacos que me acompanharam, realizei diversas tarefas que lembro ter desempenhado anteriormente – todas repetitivas, tediosas e, se bem me recordo, sem qualquer finalidade prática.

Uma lenta e excruciante tortura do começo ao fim.



Então, depois de muito tempo, pareço ter feito o caminho inverso de volta ao local onde comecei a sonhar e, cansado, fecho os olhos para finalmente me libertar desta terrível jornada.

Esta é a rotina que me acompanha por toda existência. Meu único sonho, meu eterno pesadelo recorrente.


Ao menos, ao final, sempre alcanço a redenção: meu triunfal retorno à realidade, que afasta o gosto amargo de meus dissabores oníricos.

É nela em que posso, finalmente, voar como um pássaro, salvar o mundo como um super-herói, acreditar na existência do amor – enfim, simplesmente ser feliz.


Autor: Jarbas Lima Alves da Silva


(Sonho e Realidade são duas faces da mesma moeda)

outubro 11, 2008

Banquete

Mais um poema... Reflexo, talvez, do estilhaço de algo que se partiu.



Desde que provei tua receita
Acomete-me a fome de amor
Mas o banquete me foi negado
E enxotado, tornei-me errante
Na eterna busca inconstante
Do teu maravilhoso sabor



Autor: Jarbas Lima Alves da Silva


(A tristeza é natural, mas nem por isso é fácil de aceitar)

outubro 09, 2008

Chico Moeda

"Pensando no consumismo desenfreado que assola nossa sociedade, resolvi escrever um mini-conto que retrata como as pessas se avaliam nesse admirável novo mundo onde a moral é ditada pelo capital"


Para ele, tudo possuía um valor monetário. Vidas, mortes, idéias, sonhos, amizades, amores... Não havia coisa que não pudesse tornar valiosa com uma calculadora em mãos.

Um dia, seu amigo lhe perguntou:

- E você, Chico, quanto vale?


A conta em si era simples: bastava pegar tudo aquilo que a pessoa tinha o potencial para ser e dividir por aquilo que ela efetivamente era.

O homem pensou, multiplicou, dividiu, achou o “x”, cancelou o “y”, dividiu por “z”, fatorou... Verdadeira orgia numérica.


Finalmente chegou ao resultado: o visor de sua calculadora pulsava com os dizeres “Impossível dividir por zero”.

Autor: Jarbas Lima Alves da Silva

(O valor de alguém não pode ser mensurado em moeda ou palavras, apenas por ações)

outubro 05, 2008

Vida Seca

Como não muitos perceberam, eu abandonei meu blog. Os motivos são variados e renderiam um post próprio, mas eu francamente não creio que seja algo relevante o suficiente pra colocar na internet.

Mas a consequência é que eu pretendia abandonar o blog - e de fato o fiz, pelo menos por algum tempo. Mesmo determinado a não mais postar, eu relutava em deletá-lo.

Não sei bem o motivo, mas eu adiava a decisão de destruir esse pequeno espaço que posso chamar de "meu" na orgia caótica da internet. Até que hoje, resolvi ressuscitá-lo... E pra isso, trago a vocês algo que escrevi que descreve um pouco do meu atual estado de espírito.


Acordou. Levantou, escovou, se banhou, lanchou, trabalhou, almoçou, descansou, retomou, terminou, comemorou, se embebedou, jantou e se deitou.

Repetiu.


De novo;

e de novo e de novo;

e de novo e de novo e de novo...


Até que morreu.


Só então percebeu: viveu uma vida repleta de verbos sem nunca ter provado o doce gosto de um adjetivo.

Autor: Jarbas Lima Alves da Silva


(É curiosa a ironia: a mesma mão que constrói erige as barreiras que nos separam)


No momento estou ocupado estudando para a OAB, mas aos poucos vou voltar ao mundo da blogosfera. Peço desculpas - não sei exatamente a quem, que as aceitem quem achar necessário - pela minha ausência.

abril 06, 2008

REPUBLICAÇÃO - Reflexões da Alma - Parte 1/2

Estou completamente sem tempo, por isso a republicação. Depois coloco a segunda parte deste conto.



Trago a vocês mais um de meus maçantes textos... Este pequeno conto, que escrevi quando ainda estava no cursinho, tem uma forte carga simbólica para mim: este é o único texto que sobreviveu à Primeira Grande Queima dos meus arquivos de texto. Eu explico...


Antes mesmo de me tornar um ávido leitor - e isso ocorreu precisamente no terceiro colegial - eu sonhava em ser um escritor. Não pela fama nem pelo dinheiro (na verdade, o dinheiro até que seria bom rs), mas sim pela possibilidade de trabalhar com algo divertido. Isso mesmo, divertido, pois desde pequeno, eu me deleitava com a escrita e seus mistérios. Só que eu não escrevia senão quando era obrigado, e isso se deve à minha ferrenha auto-crítica - a qual eu chamo atualmente de "bom senso" ou "noção do ridículo" - de forma que apenas passei a esboçar alguma tentativa de escrita em meados do segundo colegial.

E foi assim que eu descobri que a escrita era uma habilidade com a qual eu simplesmente não havia nascido... Eu, como era de se esperar, só escrevia lixo, e nunca reunia coragem suficiente para acabar um texto começado.

Então, um certo dia, eu me enfureci... E deletei, em um rompante de fúria, toda a minha pasta de textos. Arquivo por arquivo, eu destruí implacavelmente aqueles embriões de futuras obras. Não restou nenhum... Ou, pelo menos, era o que eu achava.

Por algum motivo, este texto sobreviveu. Havia uma cópia dele em um disquete que encontrei tempos depois. E por esta estranha coincidência, decidi dar a ele o tratamento que neguei aos seus irmãos: esta seria minha primeira obra completa. Seu título, "Reflexões da Alma", reflete meu estado de espírito da época, bem como parte das conjecturas que ocupavam meu questinamento naquele período.

É por este motivo que ele me é muito caro. Não é um texto bom, longe disso... Mas é um marco. Foi o primeiro texto que eu comecei e terminei sem ser obrigado por alguma pressão externa. E por sua importância, digamos, "histórica", eu sequer ousei revisá-lo. Então, não se espantem com os erros de português ou incoerências lógicas: eu não ousaria mudá-lo. Afinal, ainda que seja um péssimo texto, emendá-lo seria como completar por mãos estranhas as pinceladas inacabadas da "Adoração dos Magos" do mestre DaVinci, um verdadeiro assassínio do espírito original da obra, e isto por um motivo simples:

Seu autor não mais caminha entre nós.



Apenas silêncio. A inaudível sinfonia da quietude regia o ambiente, que para ele era muito mais bela que qualquer composição de Beethoven ou Tchaikovsky. Na solidão de seu quarto, Leandro mastigava e digeria com apreço seus pensamentos. Sua imaginação divagava por outro universo, um universo que ele próprio criara, onde era ao mesmo tempo deus e diabo, criatura e criação. Um universo abstrato, sem conjunto algum de regras ou imposições; sem propriedades específicas ou leis pré-definidas. Mas principalmente sem os odiosos humanos. Malditos humanos!


Era assim que Leandro passava a maioria de suas tardes. Trancafiado, isolado no mundinho de seu quarto, longe da vilania das pessoas, longe da profusão de imbecilidade, longe de tudo. Não que fosse um garoto de poucos amigos; pelo contrário, era bem popular em sua escola, pois o achavam um parceiro agradável de conversas, além de ser considerado um cavalheiro pelas garotas e muito simpático pelos professores. Mas suas palavras eram vazias, desprovidas do mínimo significado. Idiotas! Só queria ser deixado em paz, e para isso dizia sempre o que os outros queriam ouvir. Evita problemas.

O ódio começou quando Leandro parou para pensar. Percebeu o quão vazias, mesquinhas e egoístas eram as pessoas. Percebeu que éramos como gado, ruminando sem questionar as migalhas esporádicas que nossos donos nos atiravam. Estes, grandes figurões da sociedade, se refestelavam as nossas custas, distorcendo a realidade, impondo regras e costumes. Por isso, Leandro odiava a tudo, a todos e a si mesmo.

Certa vez, Leandro estava voltando de sua escola. Naquele dia, o período letivo se estendera até tarde da noite, pois a escola promoveu diversas palestras sobre temas como drogas, preservação ambiental e outras coisas boçais. Estava a pé, pois sua bicicleta havia sido roubada algum tempo atrás.

O local onde Leandro morava se localizava praticamente na outra ponta da cidade. Fazia o caminho na escuridão da noite, sozinho, exatamente da maneira que gostava. Não tinha medo das ruas desertas, nem do olhar insinuante da Lua. Absorto em seus pensamentos, ele caminhava entorpecido rumo a sua casa.

Súbito, um grito. Atordoado pela abrupta interrupção de seus devaneios, Leandro se recompôs e procurou instintivamente sua origem. Outro grito, desta vez mais forte que o primeiro. Era de uma mulher, e vinha de um beco próximo.

Leandro correu como nunca havia corrido antes. Não pensava em nada, apenas corria. Seu corpo se tornara um mero escravo de seus instintos, e suas ações naquele momento eram puramente reacionárias.

Parou em frente ao beco, e finalmente viu quem estava emitindo os gritos. Era uma linda mulher, de contornos delicados, pele alva como a neve e olhos azuis como o céu. Logo a sua frente, um homem robusto a ameaçava com uma faca. Seu andar, trôpego, mostrava o estado alcoolizado do agressor. Ele desabotoava sua calça jeans com uma das mãos, enquanto fazia movimentos ameaçadores com a faca, deixando sua vítima acuada no canto do beco.

Em um ímpeto de coragem, Leandro correu para cima do homem e o derrubou com um chute. Ele caiu estatelado no chão, deixando cair sua faca no processo. Um tanto grogue pelo choque, o agressor se levanta, e cambaleia em direção ao garoto. Leandro lhe deu um chute no estômago, fazendo o homem cair gemendo de dor. Este reuniu o pouco de forças que lhe restava e fugiu apressado do lugar.

Ele o derrotara. Mesmo sendo apenas um franzino garoto de 16 anos, conseguiu evitar um estupro. Não sabia bem porque havia feito aquilo, se arriscado daquela maneira. Afinal, não se importava com a vida alheia. Talvez... Talvez aqueles olhos o tivessem hipnotizado. Os olhos... Eram magníficos. E finalmente, quando a mulher se levantou e sorriu em agradecimento, o espírito de Leandro se encheu de uma paz da qual ele nunca experimentara antes.

Por fim, ela falou:

— Ousaste arriscar tua vida por uma desconhecida sem nem ao menos ponderar sobre os riscos de teu ato. Por isso, sou muito agradecida.

Leandro permaneceu estático por alguns segundos. Não sabia o que dizer, o que fazer. Então, a mulher continuou:

— Por teu ato nobre, ganhaste o direito de ter um desejo realizado.

— Mas... quem é você? — Balbuciou Leandro, ainda atônito pela beleza de sua companhia.

— Para você, sou a essência dos ventos gélidos do norte e o calor das manhãs ensolaradas do sul. Sou aquela que é, foi e sempre será. Sou o tudo e o nada. Sou o começo, e o fim. Faz agora teu pedido, ó mortal, que tua súplica será realizada.

Leandro não entendia nada. Não sabia se ela falava através de metáforas, se era uma louca ou se ele mesmo estava sofrendo de delírios. Porém, em seu íntimo, sabia que imaginação alguma conceberia tamanha beleza, e que um corpo tão belo jamais poderia abrigar uma mente tão deturpada. Resolveu, então, aceitar a estranha oferta.

— Muito bem. Farei então meu pedido. Desejo que toda a raça humana seja varrida, destruída, erradicada! Que não sobre uma alma viva sequer sobre este planeta! Enterre todos os humanos e os resquícios de sua existência para sempre no esquecimento!


Para ler a segunda parte, clique aqui.

Autor: Jarbas Lima Alves da Silva

março 25, 2008

Hominem Ex Machina

Não se sintam ofendidos com generalizações... É apenas licença poética. No mais, não ficou bom, mas foi apenas um desabafo noturno - nem mais, nem menos que isso.









Já nasceu morto - ou quase.

Possuía mãos frias de cadáver, o olhar vidrado dos moribundos e o sangue gélido dos recém-descarnados. Gostava da noite, pois sua palidez natural o tornava arrisco aos caprichos solares. Era, em última análise, um vivo-morto.

Sua voz pusilânime reverberava em uma frequência de desprezo e dor. Os poucos que com ele conversavam saíam com a impressão de terem sentido o amargo gosto de ódio lentamente condensado por longos anos de solidão auto-imposta.

Não obstante, nos outros aspectos, era um garoto normal. Acordava todos os dias, ia à escola, almoçava, às vezes jantava e se escondia do mundo exterior tão rápido quanto podia no refúgio de seu quarto, sempre em busca do conforto aconchegante dos bits e bytes que o acolhiam com uma ternura quase maternal.

Ah, as maravilhas do cyberespaço! Aqui, ele realmente se sentia vivo. Na orgia tecnológica da Internet, seus delírios oníricos se tornavam sonhos lúcidos, e seu coração, normalmente um pedaço semi-estático de gelo, parecia finalmente palpitar com vivacidade.

Na verdade, não é como se ele não gostasse da vida lá fora... Não, de forma alguma. O problema sempre foram as pessoas. Estes odiosos seres com quem era forçado a coabitar neste plano tornavam a vida um martírio insuportavelmente tortuoso.

Suas conversas enfadonhas, seu comportamento dissimulado, suas preocupações mesquinhas e, principalmente, sua patológica hipocrisia as tornava pouco mais do que nacos de carne que fingem aos olhos do taciturno garoto.

Mas em seu recanto virtual, as máscaras – apetrechos de ostentação obrigatória no trato social – caíam com uma facilidade quase assustadora. Ali, ele finalmente pôde encontrar pessoas. Ali, ele conseguia enxergar além da armadura que as envolve pessoas em seus afazeres diários.

Ah, e como eram interessantes, as tais das pessoas! Cada uma, um emaranhado agradavelmente complexo de possibilidades e aspirações – um contraste absurdo com os simulacros padronizados que encontrava na vida cotidiana. Sonhos, sentimentos e, acima de tudo, personalidade existiam em profusão neste meio que curiosamente era proporcionado pela frieza de uma rede de máquina.

É claro que também havia falsidade... Sim, ela existia. Porém, o interessante é que não era a falsidade pré-combinada do seio social externo. Não... Pessoas eram falsas, verdade, mas o faziam por necessidades individuais, por motivações específicas de sua pessoa – e não por mera convenção social. O farsante virtual era, ao menos, uma pessoa com personalidade. E isto, ele valorizava muito.

Mas as necessidades daquilo que chamam de “vida real“ – que é, na sua visão, o que ocorre quando corpos se encontram e essências se afastam – clamou por parcelas cada vez maiores de sua atenção, até que ele, já adulto, se viu completamente englobado por este câncer que o atormentava, culminando seu martírio no momento de escolha da carreira que tomaria boa parte de seu tempo útil pelo resto de sua miserável vida.

Não demorou muito a se decidir, pois sua escolha lhe parecia óbvia: segundo consta, fora encontrado com um tiro na cabeça e um jovial sorriso no rosto – o único que já dera além dos smileys que distribuía em fóruns e messengers afora.


Autor: Jarbas Lima Alves da Silva



(O choro é sempre dos que ficam, nunca dos que se foram)

março 22, 2008

Conto Ainda Sem Título - Trecho inicial

Hoje lhes trago o trecho inicial de uma história que pretendo tornar um pouco maior do que os contos que escrevo atualmente. Planejo escrever umas 80 páginas, mas como ainda estou na segunda, é muito cedo para especulações deste porte.

É algo diferente do que eu costumo escrever. Nada de seres mitológicos ou linguagem da era vitoriana neste texto...

Por favor, me digam o que acharam deste começo. E eu já sei que não está nada excepcional... Mas está pelo menos "passável"?



- Merda de televisão!

Estas foram as últimas palavras que o moribundo televisor de James Lescook ouviu antes de dar seu extertor da morte – um longo silvo de estática, sucedido por um inconfundível som de circuitos queimados.

- James, você é um fodido, um fodido do caralho! – resmungou.

E ele estava certo... Nos últimos 18 meses, o azarado rapaz conseguiu firmar um novo recorde em demissões: foram 10 tentativas mal-sucedidas de adquirir estabilidade financeira, uma vida decente e, quem sabe, cuecas novas. Agora, tudo o que ele tinha era um apartamento mofado no subúrbio com 4 meses de atraso no aluguel, algumas garrafas de whisky barato – estando a maioria vazia e uma delas, ainda lacrada, preenchida com uma mistura de álcool de cozinha com corante – uma televisão quebrada e nenhuma roupa limpa o suficiente para enfrentar outra entrevista de emprego. Ah, sim, e cuecas. Muitas cuecas. Todas no mínimo um número menor do que o dele.

James engordou. Ele percebeu isso quando suas latas de cerveja e copos de whisky começaram a não cair de sua barriga mesmo sem apoio. “Ótimo, economizo o dinheiro da mesinha”, pensava ele. Mas a verdade é que seu novo peso lhe trouxe alguns incômodos, como o fato de suas cuecas terem magicamente se tornado pequenas demais para que exerçam sua função com um mínimo de conforto.

A nova dieta de James, baseada em álcool e, ocasionalmente, pão com mortadela e salgados baratos de butecos, foi a responsável pela mudança. Ele já não tinha mais esperança alguma de que arranjaria um emprego, e, desde então, desistiu de tudo. “A esperança é a única que morre” era seu novo lema, e ele o recitava com escárnio quando uma gota ocasional de fé em sua capacidade despontava no lúgubre deserto de desespero em que ele se perdera.

A perda da televisão, último alento em um mundo de loucura plena, o atingiu como uma forte paulada na cabeça: toda insanidade reprimida foi impelida para fora de sua desordenada mente, aflorando em jorros incontroláveis sobre sua já abalada lucidez. Ele se sentia como se o Universo tivesse pregado nele sua última e mais diabólica peça.

Diante deste infortúnio que se chamava vida, ele fez a única coisa que parecia sensata no momento: ele riu. Ele riu alto e ruidosamente. Riu como se a piada do século tivesse sido contada a ele pelo maior piadista do milênio. Riu como se sua vida dependesse disso – e talvez realmente dependesse.

Era isso! Tudo estava claro agora! James se sentia nas nuvens, como um condenado recém-liberto de seus grilhões. Se sentia como um pássaro, voando mais alto que qualquer homem já voou – e isto, obviamente, não se refere à uma simples questão de altura, mas sim de liberdade. Se sentia, ainda que isso seja um tanto paradoxal – mas apenas um tanto - plenamente são pela primeira vez em sua vida.

- James, você é sortudo de merda!

Não havia outra coisa a fazer. Claro... Mas era justamente este o motivo que o autorizava a fazer qualquer coisa! A absoluta falta de opções possui um efeito revelador nas pessoas: ela desvenda caminhos antes ocultos sob a névoa de outras escolhas. Alguns, é certo, encontram esta opção no cano de uma arma. A maioria, talvez. Mas não James... Ele era um fodido de merda, verdade, mas não daria ao Universo o gostinho de rir por último... Não. Esse privilégio seria dele!

- Esse lugar me deprime. Que se foda, eu vou embora!

E ele realmente foi, deixando tudo para trás, exceto o que conseguiu carregar consigo em uma pequena mochila surrada: seu inseparável mp3 player, alguns livros que nunca chegou a terminar de ler, um pequeno bloco de anotações, um barbeador elétrico, um estojo com quinquilharias sortidas, seu canivete suíço – resquício de sua época de escoteiro – uma muda de roupa e um óculos estilo aviador que ele ganhara há muito tempo atrás de sua ex-namorada, Barbara. Não levou muita coisa, apenas o estritamente necessário.

James trancou tudo e, no momento em que se preparava para abandonar o lugar de vez, viu uma garrafa de whisky lacrada, solitária, quase implorando para que ele a levasse junto.

- Calma, neném, você vem com o papai.

E, acomodando a garrafa cuidadosamente em sua mochila, partiu para sempre do último lugar que ele chegou a chamar de um “lar” em toda sua vida.

Ah, liberdade! Era por isso que ele ansiava há tempos sem saber! O sentimento que o acometia era indescritível em sua fonte, mas tinha um “quê” de liberdade condicional após 20 anos de cárcere, aliada àquilo que uma criança sente ao ganhar um brinquedo novo que nenhum de seus amigos possui: ele se sentia vivo, possivelmente pela primeira vez em sua vida.

Ele deu uma última olhada para aquilo que se tornara sua prisão nos últimos anos. Um afluxo de memórias passou rapidamente pelos seus olhos, da mesma maneira como um moribundo revê sua vida minutos antes de seu derradeiro suspiro: o primeiro salário e sua recém-conquistada independência financeira, a mudança da casa dos pais, seu primeiro encontro com Barbara, a primeira noite juntos, a primeira demissão, as brigas constantes com sua namorada, o acidente de carro...

Aquele lugar evocava todo tipo lembranças guardadas há muito em sua cabeça, pois sua história estava ali, impregnada naquelas minúsculas quatro paredes. Ele passou bons momentos naquele apartamento, especialmente com sua namorada Barbara... Ex-namorada. Não era raro ele esquecer que terminaram. Às vezes, ele esperava em vão que sua namorada o retirasse da cama à força de beijos e carinhos para enfrentar mais um dia estafante de trabalho. Mas isso era passado... Suas recordações mais recentes eram um punhado de derrotas e lamúrias.

- Espero que você se exploda! – disse James ao apartamento.


Era seu jeito carinhoso de se despedir de seu antigo lar. Pelo menos, não teria que se preocupar com o aluguel... Ele imaginava a cara do sr. Lee quando descobrisse que ele deu no pé sem lhe dar um tostão. Mas nada disso importava. O mundo era uma caixa de surpresas, e ele, assim como Pandora, havia apenas começado a desvendar seus mais profundos mistérios...
Mas antes de poder gozar de sua nova vida, o mais importante era encher sua barriga – de preferência com algo não alcoólico dessa vez.

(A estrada de uma nova vida aguarda a todos que ousarem por ela se aventurar)

março 07, 2008

Fuga

Um poema auto-explicativo que se enquadra no meu atual espírito...


Eu queria fugir
Dessa selva de concreto
E migrar como um inseto
Sem rumo nem veto
Pra qualquer lugar

Mas por enquanto
Só me resta
Sonhar...

Autor: Jarbas Lima Alves da Silva



(A Babilônia de Concreto com suas luzes-que-nunca-dormem se estende até as mais altas esferas do pensamento humano, controlando seus desejos e subvertendo sua vontade)

março 05, 2008

Concurso Simplicíssimo de Mini-Contos - Resultado

Saiu hoje o resultado do I Concurso Simplicíssimo/O Pensador Selvagem de Mini-Contos no qual eu participei com três textos. Não venci, mas, observando os vencedores, percebo que não tinha muita chance de qualquer forma...

Os 4 contos premiados eram, de fato, muito bons (o meu preferido foi o da menção honrosa, simplesmente genial!). Como o concurso acabou, deixarei aqui consignados os três mini-contos que escrevi para a ocasião. A regra era escrever um conto com não mais que 300 caracteres.




AO NATURAL

Desfilava despreocupada pelas lojas chiques do boulevard. Pouco importava se a achavam mundana ou sem sal. Naquele momento, a vida era sua passarela; os transeuntes, sua platéia.

Os suspiros que arrancava dos homens confirmavam aquilo que em seu íntimo já sabia: a beleza encomendada não se compara ao glamour poético da quase-extinta mulher natural.





EM JUSTIÇA

A bem-sucedida carreira na área jurídica o tornou famoso em pouco tempo. Promotor malandro e arrogante, condenava todos nas causas em que atuava.

O sucesso lhe subiu à cabeça feito projétil:

Segundo o legista, especificamente entre a região da têmpora direita e o globo ocular.




VIDAS MASCARADAS

Todos compareceram à festa, sorrisos ocos por trás das máscaras dos convidados.

No momento do bolo, o aniversariante trocou sua suntuosa fantasia pela beleza do traje a rigor mortis:

Morreu com a faca cega e a determinação afiada de um suicida inveterado, e levou consigo a inveja generalizada dos presentes.


março 02, 2008

Republicação - A Flor Solitária

Motivo da republicação - Hoje tem show do Maiden, portanto todos os atos do dia estão voltados a este propósito. De qualquer forma, é quase um texto inédito, porque publiquei ele quando o blog ainda era um bebê e por isso teve pouca exposição.


Este é um pequeno texto que escrevi em homenagem ao aniversário de uma amiga. Para proteger sua privacidade, modifiquei aquilo que poderia ligar a história à ela. No mais, rendi uma pequena homenagem ao conto "Tristão e Isolda" pelo qual tenho um profundo apreço.


Certa vez, surgiu em meio aos Campos Floridos uma flor. Não era, no entanto, uma flor qualquer: era uma planta altiva, de pétalas frondosas e fragrância suave, porém armada com potentes espinhos em seu caule, prontos a espetar os incautos. Sua coloração azul contrastava com o verde-escuro de seu caule, dando um ar enigmático à tão singular obra da Natureza.

Não obstante, a flor se sentia solitária, pois havia nascido, por infortúnio do destino, em meio a um campo de lindas violetas. As outras flores, por desconhecerem planta como aquela, a consideravam inferior, e por isso a ignoravam por completo. Entristecida, a planta passava o dia a indagar o Destino: “Porque me puseste em meio a este local onde não sou bem vinda? Porque não sou bela como estas outras flores que me cercam? Porque, ó poderoso Destino, nasci tão diferente de meus pares?”.

Perto dali havia um pequeno vilarejo. Era costume dos habitantes locais se dirigirem aos campos para recolher flores. Estas eram usadas para externar algum sentimento que habitasse o espírito humano. Por este motivo, as flores, a quem a mãe natureza lhes dera como objetivo trazer a beleza à Criação, consideravam uma honra serem escolhidas por um humano para corporificarem seus muitas vezes inenarráveis, porém belos sentimentos.

A flor solitária observava com tristeza enquanto todas as outras flores eram colhidas, ao passo que ela apenas recebia olhares de desprezo dos humanos. “Mas que flor horrível!”, exclamavam alguns. “Nunca vi uma flor como essa... Melhor não arriscar. Sei que conseguirei o que desejo se levar alguma outra flor, que já sei que será apreciada”, diziam outros. Com resignação, a flor finalmente compreendeu que seu destino já estava traçado, e apenas a solidão eterna lhe aguardava.

Um certo dia, enquanto a Lua despontava altiva no firmamento, um jovem chamado Tristão entrou nos campos florais, aparentemente à procura de uma flor como os outros que o sucederam. Devido ao horário, as flores descansavam sob o véu noturno, exceto a flor solitária, cujas lágrimas silenciosas inundavam o campo com sua inaudível melodia. Tristão procurou, procurou, procurou... mas não parecia encontrar o que desejava. Finalmente, vencido pelo cansaço, o jovem se deitou e exclamou:

”Ó grande Diana, tu que me observas, escuta agora meu lamento! Infeliz o dia em que me apaixonei por Isolda... Amo-a mais do que tudo nesta vida, porém não sei como dizer à ela o que sinto. Por isso tenho procurado alguma flor que pudesse espelhar a pureza e a beleza do sentimento que me acomete e transmitir a mensagem à minha amada, mas apenas encontro flores mundanas, corriqueiras... Belas, certamente são. É certo que não hesitaria em entregar uma em sinal de respeito à quem admiro. Porém, o que sinto agora não é uma emoção comum ao ser humano, e por isso apenas uma flor especialmente bela poderia demonstrar o que realmente sinto. Ó infausto Destino que zomba de meu amor! Não existirá flor à altura do que sinto por minha amada?”

Diana, a deusa da Lua, escutou o lamento sincero do jovem apaixonado, e dele se apiedou. Em resposta à sua súplica, um feixe de luz partiu da Lua e foi repousar sobre a flor solitária, destacando-a em meio às inúmeras flores que ali estavam. Ao perceber a graça que lhe era concedida por Diana, o jovem se aproximou da misteriosa planta. Se abaixou, e observou com cuidado aquela flor que repousava em sua frente.

“Eis que encontro o que tanto procurava! Esta flor possuidora de uma beleza rara, que se destaca no meio de tantas outras, corporifica com perfeição o forte e singular amor que sinto pela minha amada! Uma planta rara, como o sentimento que nutro por ela; enigmática, como é o que sinto; audaciosa, por sobreviver em um meio hostil e inóspito - assim como o meu amor, que não encontra barreiras. Não é apenas uma planta, mas sim um presente dos deuses. Por isso, acredito ser este o motivo pelo qual até hoje nunca foste colhida: tua verdadeira beleza só pode ser apreciada por aqueles que nutrem um sentimento puro e forte, e não apenas lapsos emotivos banais que desaparecem com a mesma fugacidade com que surgem. Cem flores podem enfeitar um buquê que será entregue por mãos levianas, mas apenas uma única flor especial pode transmitir corretamente aquilo que sentem os verdadeiramente enamorados. Agradeço a ti, Diana, por esta bênção!“

E, ao proferir estas palavras, Tristão colheu com cuidado a flor, que já não mais se sentia sozinha. O jovem deu à ela o nome de “Rosa”, em virtude da graciosidade ostentada por esta.

No dia seguinte, Tristão se declarou à Isolda, lacrando suas palavras com a entrega da flor, que se tornou representação do amor imortal de ambos. Rosa estava feliz, pois alcançara a maior dentre as honras que o Destino poderia lhe reservar: se tornou a prova viva do amor verdadeiro, o mais sublime e belo sentimento humano que já existiu.


Autor: Jarbas Lima Alves da Silva

fevereiro 22, 2008

A dor de Amor

Um poema, uma infeliz verdade...


Sinto muito em dizer, meu senhor
Mas não há cura conhecida
Para aquela ferida
Ardida e sofrida
Da flecha do Amor

Autor: Jarbas Lima Alves da Silva

fevereiro 17, 2008

Republicação - A Sina de Juan

Estou republicando este poema porque não tive acesso a um pc neste final de semana, e estou sem tempo de criar um post do zero. Aliás, eu to sem tempo pra nada.

Don Juan é o nome do lendário libertino responsável por seduzir um incontável número de mulheres em satisfação à sua lascívia. Tal personagem, retratado por diversos autores, possui tanta popularidade que seu nome se tornou um adjetivo para o comportamento dos “mulherengos” em geral.

Este poema que deixo aqui é baseado em uma peça que na verdade nunca assisti, mas cuja existência me inspirou a escrevê-lo. A peça se chama “Don Juan in Hell” (Don Juan no Inferno), e descreve, segundo informações do site, o que acontece com Don Juan após sua descida ao Inferno...


Don Juan, por onde andas?
Tuas conquistas, tuas amas
Clamam juntas por teu amor
Mas certo é que teu ardor
Se pra uma queima, noutra se apaga
E assim carrega tua chaga
De eterno conquistador

Don Juan, por onde andas?
Quem cá chama é teu amor
Este, garanto, é verdadeiro
Nada tem de aventureiro
Como um sem número ao teu redor
Mas certo é, o Tempo clama
Fugaz se torna a tua chama
E logo busca noutra dama
A panacéia da tua dor

Dias passam noite adentro
Sempre em claro, sempre ardendo
Às jovens sobra o desalento
De servir como sustento
À lascívia, de fomento
Simulacro de um amor

E ao final, acaba a história
De conquistas e vitórias
Sobra apenas a memória
Do eterno sedutor

Eis então, a ironia
No Inferno lhe sorria
Uma jovem – quem seria?
Não importa, não a amou

Ouviu isso de tua boca
Que outrora, desejou
E a bela dama , triste e rouca
Por tais palavras chorou...

Desdenhaste a quem te amaste
Por tolo papel passaste!
Teu harém cá não te persegue
Tua amada te tem por jegue!

Pega logo a vestimenta
De bobo da corte, e se contenta
Pois no Inferno somos atores
De passadas vidas e dores
E pra ti o bobo da corte
Sairá melhor que a encomenda!
- Diz o Diabo em reprimenda

E qual moral disso extraímos?
Talvez que os jovens libertinos
Não tardam a cair no abismo
Que os próprios escavaram
Com tão fútil escapismo...

Autor: Jarbas Lima Alves da Silva

("A Morte de Don Juan", de Charles Ricketts, exposto na Galeria TATE da Inglaterra).

fevereiro 05, 2008

Paz Preventiva

Hoje, eu tirei o dia pra pensar... Pensar sobre a vida e todas essas coisas chatas que a acompanham. As conclusões vou ficar devendo... Aprendi que não devemos abrir nossa boca se não temos algo de bom pra falar, então melhor ficar silente. Assim, deixo este pequeno texto de mensagem positiva em lugar de meus íntimos pensamentos.




Certa vez, um homem estava ensinando ao seu filho algumas importantes lições sobre a história da humanidade, enaltecendo os feitos militares de seus antepassados e a evolução de seu povo.

No entanto, o jovem, intrigado, não conseguia enxergar este ciclo da mesma maneira que seu pai. Então, para dirimir suas dúvidas, o garoto começou a indagá-lo:

- Pai, por que, para nos tornarmos grandes, precisamos destruir aqueles que antes chamávamos de irmãos?

- É simples, filho. Alguns homens, ao longo de suas vidas, se desviam do Caminho. É uma pena, mas esta é a dinâmica da vida... E cabe a nós, fiéis seguidores da Ordem, detê-los através da força se necessário. Desta forma, purificamos a humanidade da raiz que traz o mal às nossas almas.

Não satisfeito com a resposta, o garoto voltou a inquirir seu progenitor:

- Então, os homens matam outros homens porque eles escolheram o caminho errado?

- Exatamente, meu filho... Uma morte é sempre um acontecimento trágico, mas ela nem sempre pode ser evitada.

- Pai... se eu sair do Caminho, o senhor também vai me matar?

- Não seja tolo, meu filho! É claro que não... A função de um pai é educar seus rebentos para que se tornem pessoas decentes, e não desistimos desta tarefa enquanto o sopro da vida insuflar nosso coração!

- O senhor diz que teria compaixão daqueles que são seus parentes de sangue, e tentaria reverter a situação, independente da dificuldade... Mas os laços de afinidade não deveriam abranger todos aqueles que chamamos de irmãos pelos laços raciais que nos unem? Se existe essa esperança na recuperação de um filho, porque ignoramos esta possibilidade quando se trata de um irmão?

- É para nossa própria proteção, filho. Se permitimos que eles andem livres por aí, em breve marcharão até nossos quintais, estuprando nossas mulheres e assassinando nossas crianças...

Confuso pelas respostas, o garoto meditou por algum tempo, e finalmente indagou seu pai:

- Se alguém sai do Caminho, e não enxerga outra trilha a não ser aquela que decidiu percorrer, não seria nosso dever demonstrar aos nossos pares o erro de suas decisões, tentando ao máximo trazê-los novamente à razão? E não é pela compaixão, compreensão e paciência que nossas súplicas adquirem idoneidade, sendo mais passíveis de serem aceitas do que argumentos que se iniciam no cano de uma arma?

- E porque nos ouviriam? Além disso, se eles possuem armas, não seria sensato atacarmos antes mesmo deles terem a chance de fazê-lo?

- Mas pai... Pensaste que talvez teus adversários pensem da mesma forma? Será que em toda a história da humanidade os dois lados nunca se sentaram para conversar?

- Isso é loucura! Nunca daria certo!

- Vocês já tentaram?


Aqueles que enaltecem as maldades encontram diversas justificativas para seus atos, definindo como loucura atitudes análogas que não lhes trazem benefícios diretos.

Autor: Jarbas Lima Alves da Silva

(Memorial de Viena contra a Guerra e o Fascismo)

fevereiro 03, 2008

O Grande Momento da Vida

Um poema, uma oração e um prognóstico. O título é uma homenagem.





Estou Vivo!
Corre o sangue pelas minhas veias
E a doce brisa matinal acaricia minha alma

Estou Vivo!
Corro com meus irmãos nos campos
Com a felicidade pueril dos primitivos

Estou Vivo!
Provo o doce néctar das frutas
E observo a beleza inefável das flores

Estou Vivo...
O tempo cobra seu quinhão
Já não mais vejo beleza ao meu redor

Estou Vivo...
O colorido se torna cinza
E o coro das crianças, uma marcha fúnebre

Estou Vivo?
Carrego o pesado fardo
Daqueles que sabem estar presos na jaula do Destino

Estou Vivo...?
Aguardo pacientemente
O inevitável Fim que tudo abarca

E é no derradeiro momento
Que recebo a dádiva da felicidade
...Estou Morto

Autor: Jarbas Lima Alves da Silva

(Nossas vidas não são mais que suspiros fugazes na cósmica Eternidade)

fevereiro 01, 2008

Republicação - Duelo dos Deuses

Todo poeta ou escritor, ainda que amador como eu, almeja por aquele indescritível lampejo de criatividade, aquela centelha de inspiração que lhe permitirá envolver em volúpias gráficas o virginal papel.


Durante a história de nossa raça, muitos foram aqueles que afirmaram possuir uma entidade responsável por lhes inspirar, por lhes insuflar os corações com o vigor criativo necessário para a produção de suas belas obras.

Ainda que eu não crie obras notáveis como tantos mestres que me precederam, mesmo eu possuo minha musa, aquela responsável por guiar minha pena com seu divino sopro inspirador. E à esta musa, minha Calíope pessoal, cujo nome não será aqui por mim desvendado - e para tanto alterei um nome desta história - dediquei esta obra, já que ela me inspirou em sua feitura.


...e os deuses não conseguiam concordar. A contenda atingiu tamanhas proporções, que decidiram resolver quem estaria com a razão através de um duelo.

- Vão, e tragam aquilo que possuir a maior beleza em toda Midgard. Aquele que trouxer o mais belo dos bens será o vencedor. - Disse Wotan, o Caolho.

E ao seu comando, os deuses partiram.

Passado algum tempo, os deuses retornaram. O primeiro a se apresentar fora Loki, e por isso ganhou ele o direito de falar antes de todos.

- Poderoso Odin, trago-lhe aquilo que desperta a maior ambição entre os homens e anões: o ouro, cuja beleza resplandecente cega até o espírito dos mais fortes.

- Belas são estas fortunas, e decerto trazem alento ao coração de seus donos. Mas sua beleza desaparece tão logo a cobiça se espalha pelo espírito, e traz o Caos às almas dos incautos - Replicou Odin - Diz tu, bravo Thor, qual foste a beleza que trouxeste?

- Poderoso Pai, trago diante de ti toda a beleza do mais belo dos animais de sacrifício. Este majestoso boi branco, cuja linhagem descende da sagrada Audumbla, não apenas demonstra beleza em sua aparência, mas também em sua função na terra: a de louvar os deuses com sua vida, e de alimentar os humanos com sua carne. Não há, portanto, maior beleza, pois este altivo animal ora sustenta os pilares da honra ao divino, ora abastece os próprios homens com sua força vital.

Odin analisou o boi com cuidado, e finalmente proferiu sua sentença:

- Certamente belo é o animal, e ainda mais belo é o seu destino. Porém, não passa de uma qualidade fugaz, um lapso se considerarmos que a ação responsável por alçar às alturas sua beleza é a mesma que ceifa sua vida, entregando tudo ao esquecimento. Mostra, agora, teu avatar da beleza, Bragi, e honra teu nome como senhor dos poetas!

- Meu senhor, trago diante de vós aquele que é o mais belo de todos os seres, e todos hão de comigo concordar. Pois eis aqui a mais bela das criações, cujo vislumbre arranca suspiros até dos mais gélidos corações. Não há nesta terra homem, anão, elfo, Vanir, Aesir ou Gigante que não lhe dedique belos pensamentos ao fitá-la. Falo da beleza impassível das belas damas que habitam Midgard, responsáveis pela própria dinâmica de toda existência. E não é nas suas nobres senhoras que os poetas buscam inspiração para criar suas mais estimadas obras? E não é por elas que tanto homens quanto deuses se lançam ao conflito, a exemplo do risco que correram Thor e Loki para não expor a bela Freya ao perigo nas garras do gigante Thrym? E não é, finalmente, de seu ventre que nasce a Vida, dando continuidade ao ciclo eterno que permite a nós apreciarmos o que há de extraordinário na Existência? Pois seu semblante reflete toda a sabedoria daquilo que existe, e mesmo um tolo declamará: não há, em qualquer dos nove mundos, ser mais belo que este.

Os deuses, admirados com as palavras do mestre dos bardos, começaram a ovacioná-lo em aprovação. Todos, à exceção de Loki, que prontamente interrompeu a solenidade, indagando o deus com escárnio na frente de todos:

- Bonitas são as palavras de Bragi, e merecido é seu título de senhor dos poetas. Porém, de que adiantam belas palavras, se de mãos vazias aparece o deus diante do mais sábio dentre os sábios? Se existe a beleza suprema que tu declamas, não sejas ganancioso. Mostre-a para nós! Não prive teus irmãos de tão bela visão!

E Odin, em sinal de aprovação, fitou os olhos de Bragi, como que incitando o deus a replicar os comentários maldosos do deus da trapaça.

- Certamente, não seria capaz de tamanho despautério! Desci até os reinos inferiores, e aqui não retornei de mãos vazias. É que a beleza que lhes trago é tão fulgurante, que certamente entorpeceria os sentidos daqueles que a vissem, tornando inútil discursar depois de a vós apresentá-la. Eis, aqui, a bela Vecantha! Mirem sua beleza, e digam se não tenho razão em meus declames!

E ao proclamar estas palavras, uma figura encapuzada surgiu no meio da sala, antes desapercebida no meio da multidão. Ela retirou seu capucho, revelando uma beleza ainda maior do que aquela por Bragi preconizada - e nem poderia ser diferente, pois ainda que proclamados pelo mestre das palavras, quaisquer elogios seriam insuficientes para descrever aquilo que mesmeriza até aos deuses. A pele alva e os cabelos sedosos contrastavam com a formosura de seu semblante, de tal sorte que até mesmo Freya, diva da beleza, enrubesceu diante da bela humana.

O silêncio que tomou o lugar custou a ser quebrado, mas nele, foi dito muito mais do que quaisquer palavras poderiam fazê-lo: que Bragi era, por unanimidade, o vencedor.


Autor: Jarbas Lima Alves da Silva

(Figura de uma Valquíria)


(Decidi republicá-lo porque faz tempo que não dou update aqui, mas to sem tempo pra criar um post do zero agora...)

janeiro 28, 2008

Entrefados

Um pequeno poema que sintetiza o que sinto todos os dias entre o horário em que acordo, e o momento em que novamente repouso.

Ah, sim, ganhei alguns selos indicados pela Nana, pelo que agradeço desde já. Mas farei um post decente na próxima atualização com eles e os novos indicados, bem como com os devidos agradecimentos (agora to sem tempo).


Oh, Enfado!

Ardo
Com o fardo
De ser

Resultado
De meu fado
...Sofrer

Autor: Jarbas Lima Alves da Silva

janeiro 24, 2008

Nada e Ninguém

Um pequeno conto, que é mais um reflexo de minha natureza interna. Este conto é, de certa forma, a continuação espiritual de outro dos meus que já postei aqui anteriormente. Mas não há necessidade de sua leitura para compreensão do texto.

Também aviso que no texto original utilizei um recurso para dinamizar a leitura deste texto que é um diálogo. Para retirar a necessidade de identificação dos personagens, utilizei uma cor para a fala de cada um deles. No entanto, como sou uma anta e não sei mudar a cor do texto por aqui, coloquei um deles em negrito, e o outro, em letras normais para simular o efeito.



[Na encruzilhada das Sendas do Destino]


- Olá, amigo. Quem é você?
- Eu sou Nada.
- Nada? Porque tens um nome tão desprovido de sentido?
- Porque sou a exata ausência de alguma coisa.
- Não parece um tanto paradoxal que você seja Nada, e ao mesmo tempo esteja discutindo comigo?
- Talvez não... E tu? Qual é teu nome?
- Eu sou Ninguém.
- Eis, então, a solução do mistério, e o início do problema: Nada nem Ninguém conversam.
- Entendo... Quem, afinal, determinou teu nome?
- Certamente a Vida, ou o Destino.
- Não, isso não pode ser... A Vida é uma mãe passiva, e o Destino um pai ausente, ao menos no presente... O que tu és? De qual raça provém?
- Já disse a Ninguém! Eu não sou nada!
- Mas ao mesmo tempo é alguma coisa... não?
- Porque diz isso?
- Se assim não fosse, diria “Eu sou nada!”
- Em eras passadas, já fui humano... Mas, como já disse, hoje sou Nada, assim como tu és Ninguém.
- Se já foste humano, como perdeste tal condição? Não seria esta inerente ao teu ser?
- A história é longa, e pouco importante... Deseja mesmo ouvir?
- Temos Tempo... Ou melhor, não temos, pois aqui, na encruzilhada do Fim das Eras, sequer Ele reside.
- Pois bem... contarei brevemente minha história.



Eu era um humano como qualquer outro... Ou ao menos, era o que eu achava. Meu convívio com esta sórdida raça me fez perceber o quão pouco tínhamos em comum. Parti, então, rumo ao desconhecido, e tomei um local isolado como lar. Lá, acreditei encontrar um irmão espiritual, um lobo a quem já chamei de amigo, mas, com o tempo, percebi que éramos por demais diferentes, e por isso nos separamos. Tentei me tornar um com a natureza, mas também percebi que da própria flora era eu diferente. Percebi, então, que não era nem um, nem outro, e se não era coisa alguma, apenas poderia ser nada. E Nada me tornei, engolido para sempre pelo vácuo de minha própria essência.

- Escutei com atenção, amigo. Nosso trajeto é diverso, mas nossas histórias, semelhantes.


Já fui outrora um lobo, e corria livremente pelas planícies em busca de alimento com meus pares. No entanto, era por meus irmãos rechaçado, e de maneira alguma era por eles considerado seu igual. Verti lágrimas incontáveis, e o sofrimento me acompanhou em minha jornada. Até que, um dia, resolvi me libertar dos grilhões que me aprisionavam, e parti em busca de alento na vida solitária. Por muito tempo perambulei isolado, e no início tal condição me agradava. Mas passaram-se os anos, e a muito custo percebi que a vida só é dolorosa. Não há sentido em sua própria existência, se não aquiescem dela teus pares. Assim, vitórias são vazias, pois com ninguém são compartilhadas, e lembranças inexistem, eis que ninguém irá delas se lembrar. E ao final, tua existência é irrelevante, pois ninguém há de notá-la ou rememorá-la. No entanto, encontrei em minhas andanças um espírito-irmão. Tratava-se de um humano, por quem nutri grande afeto. Mas, ao final, nos separamos, porque éramos por demais diferentes, ainda que sobremaneira iguais. E desde então me tornei Ninguém, esquecido por todos – até mesmo por mim.

- Diz, então, Ninguém, porque, de todos os lugares, vieste parar aqui?


- Tu bem sabes porque, Nada, mas ainda assim responderei. Se ninguém de ti se lembra, e com ninguém deseja manter contato, apenas resta o isolamento. E tal desejo, se for suficientemente forte em teu espírito, há de se realizar mesmo após a morte. E em qual outro lugar poderia eu repousar, senão no Fim das Eras, onde é certo que nenhuma alma viria se aventurar?

- É certo que aqui estou por igual motivo, pois se nada desejo, apenas o nada posso encontrar. No entanto, cá estamos, eu e tu - e de repente, eu perdi meu nada; e tu, perdeste teu ninguém.

- Sim, estranha coincidência nos acomete. Imagino o motivo deste encontro.


- São sábios os regentes do Universo, e eles, dizem muitos, são reis justos e piedosos. É certo que ambos desejamos o isolamento, mas quem sabe o grito silencioso que escoou de nossa alma?

- Ainda assim, não há nada que desejasse em meu íntimo no momento de minha partida.

- E mesmo em vida, não possuía algum desejo?


- Clamei em vida por companhia, mas vi que foi em vão. Por isso, desisti, e procurei viver uma vida solitária. E de fato o fiz... Não, espera. Me lembro agora. Realmente, após me despedir de meu irmão humano, uma ponta de arrependimento me acompanhou dali em diante.

- E o mesmo digo de meu amigo lobo, de quem com pesar me separei. Creio que o arrependimento me acompanhou até meus últimos dias naquela terra...


- Seria este o motivo de nossa reunião? Seria tu o irmão que perdi em vida, e que agora reencontro após a morte?


- Bendito seja, irmão! Enfim compreendo a inefabilidade dos desígnios divinos... Ainda que longa e penosa seja a jornada, recompensador é o seu desfecho! Eu finalmente encontrei o que desejava, Nada, e tu, encontraste Ninguém!



Dessa forma, pude finalmente compreender meu lugar no Universo...

Eu sou Nada, amigo de Ninguém. E esta existência me basta.

Autor: Jarbas Lima Alves da Silva

(Destino, o guardião daquilo que Foi, É e Será. No entanto, nem mesmo em seu livro estão escritas todas as histórias...)

janeiro 22, 2008

Selo

Amigos, é com muita satisfação que recebo do blog Cafeína Só Não Basta meu primeiro selo. Agradeço ao Sidcafeína pela honra...


Seguem as regras:

1 - Este prêmio deve ser atribuído aos blogs que o premiado considere como sendo "bons" (entendem-se como bons os blogs que costuma visitar regularmente e onde deixa comentários).

2 - O Blog que recebe o "Diz que até não é um mau blog" deve escrever um post:

a) Indicando a pessoa que lhe deu o prêmio com um link para o respectivo blog;
b) Mostrando tag do prêmio e as regras;
c) Indicando outros 7 blogs para receberem o prêmio.

3 - Deve exibir a tag do prêmio no seu blog.

E sem mais delongas... Meus indicados são estes:


Contém Açúcar - Um blog de poesias, daquelas que não são apenas um agregado de belas palavras, mas sim, a transliteração de riquíssimos sentimentos humanos... Recomendo aos que desejam entrar em contato com os mais nobres sentimentos do ser humano em forma escrita. Entrem, vocês não se arrependerão!

Road to Enderheim - Um blog de contos e poesias de um novo escritor - tanto em idade quanto no ofício - cujas obras possuem uma predileção pela temática fantástica medieval. Gosto muito de seus textos, e invejo a habilidade que ele possui em criar poesias na língua inglesa. Façam uma visita!

Contos Ancestrais - Dos blogs do Arthurius - todos excelentes - este é o meu preferido. Um blog de contos, contos maduros assim como aquele que os escreve, e que transbordam profissionalismo. Aos que ali se aventurarem, esperem por descrições ritmadas que prendem a atenção, e desfechos inesperados e surpreendentes. Confiram que vale a pena!

Apenas Cacos, Pedaços - Excelente blog de poesias. Recomendo para qualquer um que deseja entrar em contato com a poesia amadora que, no entanto, se estrutura como a de um profissional. O jogo de palavras é uma característica natural da autora, e acreditem, ela faz isso com maestria. Recomendadíssimo!

Memórias Sentimentais - Eu pensei em colocar apenas blogs literários nesta lista, mas não consegui não incluir o dessa brilhante garota. Este é um blog de reflexões críticas da autora acerca de assuntos da atualidade. Então, o que ele tem de especial? A pessoa que os escreve... Os textos são concisos e muito bem estruturados. As idéias fluem sem saltos lógicos, e a conclusão sempre se embasa nas premissas anteriores. A linguagem é excelente... Simples, porém requintada - não recai em pedantismos desnecessário, mas ao mesmo tempo não se rende ao coloquialismo: é simplificada, mas não banalizada. Textos esteticamente perfeitos, na minha humilde opinião.

Mas não só de estética vive um texto, e lhes garanto que a maestria argumentativa da autora do blog deve ser apreciada em primeira mão, porque meros comentários de terceiros não lhe fariam justiça... Entrem, visitem... E se surpreendam.

Confessionário - Este blog, embora não seja de contos, é como se fosse... É um blog estilo "diário", e relata a vida do autor, César, e suas peripécias amorosas. O destaque fica para o estilo da escrita: ele consegue te prender com a narração, que é simples, mas rica. São textos que extravasam sentimentos, e que, tenho certeza, prendem a atenção de qualquer um. Se você ainda não conhece, dê uma passada, e talvez vire mais um fã - ou umA fã, o que, imagino, ele prefira rs - do seu autor. (um dia, talvez a história dele vire um livro... e venderá bem, tenho certeza).

Contos de Anerás - Este é um blog de "contos" - as aspas estão aí porque, na verdade, se tratam de histórias conexas, pertencentes à uma mitologia una - que conheci há muito pouco tempo, mas do qual já me tornei um leitor fiel. Trata-se da descrição dos eventos que permeiam o mundo fantástico-medieval criado pelo autor, e lhes garanto que a leitura vale a pena. Aos fãs de Salvatore e Weis & Hickman, leiam já que não se arrependerão!


Estes são meus escolhidos... Este post tomou todo meu tempo de hoje, e por este motivo, informarei os escolhidos apenas amanhã.

E amanhã, postareia a continuação espiritual de um conto meu que publiquei em outra oportunidade...

Ah, uma última coisa: PRECISO URGENTEMENTE DE ALGO PRA LER FEEDS! Visitar blog por blog simplesmente não dá mais... Tá na hora de evoluir hehe. Por favor, ME RECOMENDEM ALGO PRA LER FEEDS nos comentários. Obrigado...

janeiro 21, 2008

Sem Sentido

Este é um poema simples - assim como todos os outros - que eu escrevi recentemente. Acho que ele prescinde de maiores explicações...


Quando era criança
Sentia no gosto da vida
A doçura da esperança

Então tornei-me adolescente
E vi o mundo se tornar
Uma festa efervescente

Mas agora que estou adulto
No escuro tateio como um vulto
Em busca do inefável indulto
Que me liberte deste viver

Autor: Jarbas Lima Alves da Silva


(É por tê-la em mira que o fardo da existência se torna suportável)

janeiro 15, 2008

O Lobo e o Camponês

Esta é uma pequena história que escrevi em um momento de íntima reflexão. No entanto, não confidenciarei à vocês qual é a moral desta história, porque a mensagem pouco importa, e sim, a compreensão que vocês, leitores, depreendem deste simplório texto. E no fim das contas, a moral do leitor é a única válida para qualquer obra...


Diz-se que um jovem camponês, desgostoso com a vida em sociedade, decidiu obedecer seu instinto e dali partir. Juntou, então, os poucos bens que lhe pertenciam, e abandonou sua vila, rumando em direção à floresta.

O camponês caminhou, caminhou e caminhou... Mas não conseguia encontrar um local adequado para habitar. Decidiu, por fim, que caminharia até que seu coração lhe mandasse parar.

Por fim, o jovem se viu às margens de um pequeno, porém belo riacho, onde decidiu parar para descansar. E foi ao tomar um gole da água límpida e cristalina daquele córrego que seu coração finalmente quebrou o silêncio: este seria seu novo lar.

Se acomodou, então, o camponês em seu novo lar, e ali passou alguns dias em paz. “Não mais verei a face de nenhum ser vivo”, pensava consigo. “Aqui, não mais serei incomodado”.

No entanto, por ocasião do destino, o camponês encontrou um lobo vagando por seu novo lar. Irritado com a intrusão, o camponês disse ao lobo:

- Criatura vil, vai-te embora daqui! Este é meu lar, e tu aqui não ficarás!


Ao passo que o lobo respondeu:

- Humano, resido nesta floresta desde tempos imemoriais. Com tua arrogância, não apenas turba minha posse, mas ainda deseja me expulsar de meu lar?

- Se esta é realmente tua morada, onde está tua alcatéia?

- Eu, assim como tu, ando só. Tenho tanto em comum com meus pares quanto tendes com os teus.

E o humano nada mais disse, nem o lobo retrucou. E ambos passaram a conviver, muito embora não trocassem uma palavra sequer. Porém, vez ou outra a comida preparada pelo camponês se revelava além de suas necessidades. Quando isto acontecia, ele deixava parte de seu alimento para o lobo. O lupino, por sua vez, montava guarda noturna para proteger o jovem humano, pois seus instintos detectavam a menor movimentação mesmo durante o sono. E não tardou até que estas atividades de ambos se tornassem hábito.

Um certo dia, o camponês cuidava de seus afazeres matinais. Sua rotina, no entanto, foi interrompida pelo som estridente do ganido de um animal nas proximidades. Imediatamente, o humano correu de encontro ao som, e viu que o lobo havia sido ferido por um enorme urso. Sem considerar o perigo de sua atitude, o camponês sacou sua faca e correu em direção ao agressor, cravando-a em seu ombro. O urso reagiu rasgando-lhe a carne com suas afiadas garras, mas se descuidou com este ataque em relação ao lobo, o qual aproveitou a brecha para fincar suas presas no pescoço do urso. Mortalmente ferido, o urso tombou, e após um derradeiro suspiro, pereceu. Então, o humano perguntou ao lobo:

- Lobo! Estais bem?- Porque te preocupas, humano? Não sou para ti mais que um animal selvagem.

- Não é verdade... Tu bem sabes que temos mais em comum do que com nossos pares. Sou tão humano quanto tu és lobo.

- Ainda assim, somos diferentes. E tu bem sabes que juntos não podemos conviver, pois tal é o destino dos homens e lobos: o eterno ódio e a desconfiança impera entre nossas raças.

- E importa nossa natureza mais do que nossos sentimentos?

- Tu viste o que aconteceu, humano. Nossa convivência apenas trouxe dor e sofrimento, e por nossa ventura, ambos estamos feridos. Tu podias, com teu intelecto, fugir do urso ou ludibriá-lo com um estratagema, e eu poderia eventualmente derrubá-lo. O Destino é um senhor terrível, e a ele devemos nos curvar...

- Maldito seja este Destino! Quando acredito encontrar um irmão, vejo-me impossibilitado de ser feliz em sua companhia!

- E irmãos seremos, até o fim dos tempos. Adeus...


E com estas palavras, o lobo partiu. E nunca mais se viram, embora um nunca tenha esquecido completamente do outro.

Autor: Jarbas Lima Alves da Silva

(Foto tirada de de um homem com um lobo no Alaska)

janeiro 11, 2008

Bile à Cavalo

Não tenho o que dizer sobre este proto-poema, pois ele é tão velho quanto o que o precede. Também invoco a tal da licença poética para assassinar o seu João da padoca: esfaqueei o portuga sem dolo homicida, apenas culpa poética...


De sabores eu entendo
Escute bem com atenção
O doce gosto da amizade
Sei bem - não tem comparação

De sabores eu entendo...
Ouve agora a razão
Provei do néctar da honra
E viciei no seu torrão

De sabores eu entendo?
Confuso estou com a emoção
Ora forte ela me torna
Noutra empurra-me ao chão

Dissabores eu entendo
Solta agora minha mão
Pois o amor me é amargo
Ácido feito limão
Talvez em sua abstinência
Encontre a minha salvação

Autor: Jarbas Lima Alves da Silva

janeiro 09, 2008

Lamento ao Futuro Perdido

Um poema que escrevi em um momento não muito bom... E lembrem-se: nem tudo é o que parece - especialmente com a arte - ou, neste caso, pseudo-arte.


Belas visões de um futuro celestial
Improvável – surto de uma mente delirante
E quais martírios os céus resguardam para o infante
Que empafioso, desejou obra angelical?

O veneno do teu ser me entorpece e me destroça
Mas não é tóxico - não há fel
Se sou guerreiro, és hidromel
Teu silêncio é minha coça
E tuas palavras em minha memória
Guardam tempos felizes de outrora
Belas lembranças do que passou

Sem ti, só há derrota
A vida se torna uma anedota
Desprezível seria minha história
Sem teu prefácio de amor

Mas insisto, eis que o esforço
Por tamanha Beleza é pouco
E ainda que lúgubre seja o Destino
Nobre há de ser a empreitada
E nela insistiria a ferro e espada
Ainda que tortuosa fosse a jornada.

Oh! Doce sofrimento
Princípio de alento
Culmina em tormento
E mata.

E assim termina tudo como começa: no Nada.

Autor: Jarbas Lima Alves da Silva


(O último vislumbre que Orfeu obtém de Eurídice na saída do submundo)

janeiro 08, 2008

Fuvest 2008 – Comentários – Geografia

Eu sei que isso é supostamente um blog literário, mas como andei fazendo muita prova, não escrevi muita coisa, então...

Após a árdua batalha, retorno do campo de guerra intelectual, e tal qual um famoso general romano confidenciou após o fim de uma importante escaramuça, ao chegar em casa, disse em alto e bom som:

Veni, vidi... cacildis!


(O general em questão era Maximus Palhacis Mussunis. Esta é uma foto do legionário vestindo sua armadura de combate)


Essa prova estava até que fácil, mas eu descobri duas coisas ao resolvê-la:

1-) Eu leio muito menos jornal do que deveria (a última notícia impressa que li foi sobre a morte do PC Farias, e só porque estava próxima dos quadrinhos)

2-) Eu preciso URGENTEMENTE me atualizar com relação ao mapa mundi (durante minha última consulta, o Irã ainda se chamava Pérsia).

Ou seja, fui mal... Muito mal... Tão mal que, se cebolas fossem corretoras da prova, até elas chorariam de angústia com o meu sofrível desempenho.

(Cebola chorando ao ler na minha prova que o Sudão se chama assim porque fica "ao sul de Dão")


Essa prova teve muito mapa para interpretar. Além disso, a fuvest cobrou muito posicionamento pessoal e estudo comparado de situações, o que é bom. Quem estava atualizado com relação ao que ocorre no mundo e estudou um pouco, foi bem.

Não foi o meu caso.

Para externar minha revolta, resolvi criar um novo modelo de vestibular baseado em informações relevantes que podemos depreender da cultura hodierna, cobrando uma postura reflexiva do aluno sobre questões atuais de nossa sociedade. Quem passar poderá se matricular na minha recém-criada faculdade, denominada Núcleo de Estudos Relevantes e Divertidos.


Segue o primeiro vestibular:

[JARVEST - 2008]

1. Quem atirou primeiro?

a-) Han Solo
b-) Greedo
c-) Chewbacca
d-) George Lucas


2. Qual a velocidade média de vôo de uma andorinha?:

a-) 25km/h na CNTP.
b-) 50km/h se aproveita o empuxo da queda livre.
c-) 10km/h se for depois do almoço – sabe como é, caminhar (ou voar) pra digerir.
d-) Como assim, uma andorinha africana ou européia?


3. Assinale Verdadeiro ou Falso:

a. O fracasso do PS3 se deve a um conjunto de fatores, dentre os quais podemos citar: alto custo do sistema, complexidade do seu devkit, falta de títulos exclusivos decentes, Riiiiidge Racer e Giant Crab + Massive Damage. ( )

b. A rede interativa Live da Microsoft baniu recentemente os consoles com modchips, o que significa que todo usuário com modificações em seu console será abduzido pelo FBI – braço de operações dos reptilianos – onde serão submetidos a experiências cruéis como assistir a uma temporada inteira de Smallville. ( )

c. Em homenagem ao sucesso do videogame da Nintendo, o grupo musical “Queen” gravou uma música para exaltar o console, cuja letra segue parcialmente transcrita: “Wii will wii will rock you!”.( )


Redação: Imagine um encontro entre as icônicas naves espaciais USS Enterprise e a Imperial Star Destroyer. Caso a situação se torne de franca hostilidade, descreva como seria o conflito entre ambas, e qual seria o resultado de tão fatídica experiência.


Se você acertou todas e foi bem na redação, meus parabéns, e bem vindo à N.E.R.D!




Gabarito:

1- a (errou? Culpe o imbecil do George Lucas!)
2- d (vá assistir Monty Python, seu baladeiro!)
3- V, F, F - se você não entendeu a primeira afirmativa, assista o vídeo abaixo:



Para ver um exemplo de redação boa sobre o tema, clique aqui.

janeiro 07, 2008

Me formei em Direito! E agora...?

...agora, meu amigo, você senta e chora... E se você não sabe o motivo, leia o pequeno texto que escrevi abaixo. Ele sintetiza tudo o que eu estou sentindo neste exato momento. Já adianto em minha defesa: há uma alta dose de ironia e sarcasmo no texto.
(Temis, deusa grega da justiça e maior vítima do direito atual. Parafraseando Tobias Barreto, eis nossa justiça, não mais peituda e vendada, mas sim, peitada e vendida...)

Aviso: Os links de notas de rodapé estão quebrados. Depois eu arrumo... Se quiserem, abram duas janelas e olhem as notas do texto em uma delas...


- Finalmente, livre!

É o que gritava o espírito do recém-formado bacharel em direito. Já sua mente, um pouco menos polida, urrava em alto e bom som “Acabou essa merda! Hahahaha!”. E não poderia ter sido outra sua reação, afinal, os longos e tortuosos 5 anos de extrema labuta acadêmica – e nas horas vagas, etílica – haviam por fim acabado, e ele finalmente se tornara...

O que ele se tornara mesmo? Ah, sim... um bacharel... em direito.

Viva......

A euforia inicial o abandonara. O súbito choque de realidade esvaziara seu ânimo tão rapidamente quanto um universitário o faria com sua caneca1 de chopp. E só lhe restava agora a ressaca dos recém-formados, pois no fundo ele sabia que apenas no direito ocorre um fenômeno curioso após o término da faculdade: o recém-formado torna-se, com sua conquista, menos do que era antes.

O conceito lhes parece estranho? Permita-me explicar.

Após a dura batalha pela sobrevivência universitária e escraviária2, o recém-formado na secular profissão jurídica sente como se a faculdade lhe desse um tapinha de “boa sorte” nas costas, enquanto lhe aplica o fatídico “pé na bunda” que o introduzirá no selvagem mercado jurídico de trabalho.

Confuso, o recém-enxotado em direito, após as cerimônias de encerramento de praxe, se dirige ao seu antigo emprego, onde é informado por um comunicado de seus chefes que, “apesar do notável esforço e comprometimento do estagiário com seu serviço, o escritório não está preparado para receber mais um membro em seus quadros já inchados em virtude da estagnação do mercado, e, infeliz e lamentavelmente, não será possível sua manutenção no rol dos escraviá estagiários da empresa”3. E o mais engraçado é que, no dia seguinte, o recém-desempregado sempre descobre pela fofoca nos egroups que o filho do melhor amigo do dono do escritório acabou de ser promovido de estagiário a advogado-sócio de fato4, e seu irmão menor tomou sua antiga vaga no setor de “duplicação de documentos e protocolo de emergência”5 – sendo, é claro, rapidamente promovido para a chefia do local em tempo recorde.

Quanto aos estagiários que trabalham arduamente6 na rede pública, estes sequer se preocupam com tais problemas... Nenhum deles precisa ser um detetive pra saber de antemão por quem, quando, e como serão sumariamente exonerados de seus cargos - “Foi o departamento de RH - no fim do contrato - com o comunicado interno”.

Então, o que acontece é que não importa se você trabalhava no Tossano, no Adeverest, no Eucalipto Neto ou em qualquer órgão público... A questão é que você VAI ser um desempregado, e ponto final!

“Bem, mas eu tenho UM DIPLOMA! Eu sou FORMADO!”

Clap, clap, clap... Parabéns, campeão! Só que não te explicaram uma coisinha mínima...

UM BACHAREL EM DIREITO NÃO PODE FAZER ABSOLUTAMENTE NADA7! Zero, nada, niet!

É isso aí, amigão... Quer prestar um concurso público? Já imaginou? Defensor Público, Promotor de Justiça, Magistrado, Procurador... Bons salários, dá pra comprar aquele carrão que você sempre quis, encher ele de loiras – quentes e geladas – ou curtir aquela viagem com tudo caro – não errei na grafia – em um cruzeiro pela Europa8. Ótimo... Mas... Ah, que pena, não tem OAB? Precisa, né... Hey, mas não fique triste, eu fiquei sabendo que tá abrindo um concurso ótimo pra escrevente do Tribunal de Justiça...

Quer advogar? Bem, você pode... Aliás, se quiser, pode inclusive se inscrever no convênio da Defensoria Pública que eles arrumam causas pra você! Moleza, hein? Não precisa nem correr atrás... A famosa tática "Maomé"9.

Só tem uma coisinha, uma exigenciazinha boba... Precisa de OAB!

É isso camarada, O-A-B! Não, isso não é um absorvente feminino... É um pedacinho de plástico que te classifica como advogado. Como arrumar? É simples, é só fazer uma provinha com a matéria de TODO o seu curso.

Isso mesmo, eu disse TODO O CURSO!

...achou que ia se livrar dos debêntures e das enfiteuses? Pois é, a vida não é só feita de Alegações Finais, amigão.

E se você acha que vai se livrar disso simplesmente alegando que nunca vai advogar na área cível, pense novamente. Aliás, você é um malandro. É o tipo de cara que pediria aprovação compulsória em Matemática no colégio devido à difusão em larga escala de calculadoras a preços módicos10. O senhor é um fanfarrão!

Enfim, essa é a realidade do bacharel em direito: um cara que, em contraste com sua vida anterior, não tem mais emprego, não pode exercer a profissão pra qual estudou durante 5 longos anos (ou mais) de sua vida, não paga mais meia no cinema, não tem direito a passe escolar pra ônibus e metrô...

Como diria a inscrição nos portões infernais de Dante:

“Aqueles que aqui entrarem, percam as esperanças”

Então, pra você, que achou que fazendo direito iria sair da faculdade dirigindo um Aston Martin com uma loiraça do lado – e possivelmente uma morena e uma ruiva no banco de trás – ou, no caso das mulheres, que você seria a loira “tunada”11 no volante de um, e que sua vida se resumiria a praia, cerveja e muita curtição, sou forçado a lhe informar o seguinte:



Você caiu na pegadinha do direito! Ráaaaaaa!


(Se você não faz direito e por isso não entendeu, assista esse video curto que ele é bem explicativo)


1É fato conhecido que a caneca-média do universitário brasileiro contém, no mínimo, 500ml de volume, prorrogáveis por mais 500 – e certamente repetíveis por tantas vezes quanto sua carteira (e eventualmente, a de seus colegas) permitirem. Meio como a CPMF: já que o povo está pagando, manda descer mais uma!

2“Escravo” é um sinônimo para a expressão moderna “estagiário”, que em síntese significa “aquele que tira xerox a preços acessíveis”. Juridicamente ele é conhecido pelo termo “bem semovente”.

3Curiosamente, tais comunicados normalmente vêm acompanhados da contratação de uma grande remessa de novos semoventes, ávidos por demonstrar serviço “furando os olhos” dos seus colegas-competidores.

4“Ora, mas ele não tem OAB!”, vocês poderiam pensar... Sim, mas isso realmente importa? Tudo se resume a distribuição de trabalho e distribuição de dinheiro. O resto são meras formalidades para agradar o papel – formalidades que podem muito bem ser omitidas...

5Vulgarmente conhecido como “xerox e fórum”.

6Pelo menos, é o que eles dizem... com ênfase e tudo mais.

7Peraí, nós podemos fazer HCs! Quem quiser, estou montando uma empresa só de HCs: a “HC Moleza”.

8Se você se casar, troque tudo por “conseguir custear seus filhos e parte contrária sem recorrer (muito) ao dinheiro de agiotas...”

9“Se Maomé não vai até a montanha, a montanha vai até Maomé”. Agora, fiquem avisados: vocês vão ganhar bem “maomenos” fazendo isso...

10Já pensou em tentar seguir carreira criminal?

11A técnica da troca dos pneuzinhos por equivalentes menores e a inclusão de airbags duplos são opcionais populares entre as garotas bem-sucedidas no meio jurídico, e em certos locais, requisito essencial para a promoção no trabalho.