Bem-vindos, nobres espíritos!

Sintam-se em casa em minha humilde morada. Aqui vocês encontrarão alguns de meus loucos textos que ora lhes convido a ler e, se assim desejarem, comentar...

dezembro 18, 2007

Reflexões da Alma - Parte 2/2

Esta é a segunda parte do conto que postei anteriormente... Clique aqui para ler a primeira parte.



Proferiu estas palavras com raiva, a mesma raiva que sentia por toda a sua espécie. A mulher olhou no fundo de seus olhos e perguntou:

— Mas tu não fazes parte desta raça? Desejas encomendar tua própria destruição?

— Sim, e nada que você diga me fará mudar de idéia! Pode realizar meu desejo?

O rosto da mulher, antes radiante como a luz do Sol, se tornara sombrio e melancólico como a Lua. Se dirigindo ao garoto, ela perguntou:

— Está bem, realizarei teu desejo... Mas me responda antes porque desejas aniquilar toda tua raça, mortal? Teu ódio pelos teus irmãos é tão grande?

— Não, é ainda maior! Não vê o quão fútil e danosas são as ações dos humanos? Estes malditos se espalham como um câncer, destruindo tudo que encontram apenas pelo seu próprio engrandecimento! Não se importam em atropelar seus próprios irmãos, seu planeta... Não constroem nada que não se baseie ou tenha por fim a destruição! Usurpadores da mãe terra! Não têm o direito divino de viver!

— Colocas-te à parte dos humanos. Porquê? Não sois, afinal, todos da mesma estirpe?

— De corpo sim, mas não de alma.

— És tão egoísta quanto aqueles que tu condenas. Não percebeste que acusa teus irmãos do mesmo erro que cometestes? Fútil, não tens função alguma nesta vida. Acomodado; não procuras mudança ou melhora. Egoísta; não pensas nos outros. Até mesmo teu desejo, que tu pensas ser oriundo de tão nobre motivo, na verdade esconde apenas tua dificuldade em se adaptar a esta sociedade.

As palavras da mulher o atingiram em cheio. Sentiu um aperto em seu coração. Sentia algo de errado, mas não sabia o que era. Por fim, a mulher completou:

— Não obstante, devo-lhe minha vida, e se este é teu desejo, o cumprirei conforme prometido...

— Espera... Não desejo mais a aniquilação dos humanos... — Disse Leandro.
— E o que desejas?

— Desejo que minha existência neste planeta seja apagada. Nunca mais quero ver ou ouvir outro humano.

A mulher escutou atentamente as palavras de Leandro, e com um meneio concordou com o pedido. Ela fechou seus olhos e estendeu os braços em direção ao céu. Uma luz branca pareceu emanar da mulher. Uma luz cada vez mais intensa, iluminando a escuridão do beco. Leandro pôde ver uma lágrima escorrer do rosto da mulher, e então...

Nada. Não havia coisa alguma ao seu redor. Leandro não conseguia enxergar algo além dele mesmo. Era como se estivesse no fim dos tempos, na escuridão do esquecimento, no vazio do nada. Havia perdido totalmente a noção de tempo e espaço. Também não sentia seu corpo como antes. Tinha a impressão de que ele não era feito do mesmo material. Chegou a pensar que aquela era na verdade a sua alma.

Seria aquele o local aonde as almas vão para descansar pela eternidade? Se fosse, onde estariam as outras almas? Foi então que se lembrou de seu pedido. Nunca mais queria ver outro humano... Teria ele sido banido também da convivência com as almas dos outros? Bem, não importava. Era exatamente assim que ele queria. Poderia passar toda a eternidade daquele jeito. Sem pensar ou fazer nada. Fechou os olhos e se desligou de tudo...

No entanto, não conseguiu fazer com que as palavras daquela estranha mulher parassem de ecoar em sua cabeça. Leandro refletiu sobre elas por um bom tempo, até finalmente perceber que durante todo esse período havia sido desonesto consigo mesmo. Não conseguia admitir que toda sua rebeldia se originara, na verdade, de sua inabilidade em se mesclar, em se tornar parte da sociedade. Percebendo o quão patético ele fora, Leandro se ajoelhou, desfazendo-se em lágrimas. A mulher apareceu diante dele. Ela se apiedou do garoto, e o abraçou, confortando-o. Sussurou então em seu ouvido:

— Não és o único, pequenino, que acreditas viver em um mundo desolador. Muitos de teus semelhantes compartilham de tuas idéias. Mas diferente de ti, não procuram se isolar e se afastar do problema. Muitos tiram suas forças da esperança de poder construir um mundo melhor, encarando o problema de frente, e não fugindo. Vai e muda o planeta com tuas próprias mãos!

— Ainda assim desprezo toda a minha raça, mas acima de tudo desprezo a mim! Acaba aqui com a minha existência, pois de todos sou de longe o mais desprezível... Não passamos de parasitas! Vivemos apenas para machucar nosso planeta e a nós mesmos...

Ela fitou os olhos do garoto, e disse:

— Não te zangues com os humanos, pois são todos ainda muito jovens e imaturos para assumirem tamanha responsabilidade a que lhe competem. A raça humana está em sua adolescência, descobrindo suas capacidades, experimentando, transformando... Não te preocupes com a Mãe Terra, pois como toda boa mãe ela sabe que seus filhos rebeldes se tornarão grandes homens no futuro. Mas tal processo leva tempo... Enquanto isso, faz tua parte e demonstra a teus irmãos o que deve ser feito. Com isto, já me darei por satisfeita...

Beijou então a fronte do garoto, e ele desmaiou. Quando acordou, estava deitado em sua cama. Os raios do sol adentravam pela janela e iluminavam todo o seu quarto, anunciando a chegada da manhã. Era difícil dizer se tudo não passou de um sonho... Mas se havia sido, este fora assustadoramente real. Gostaria de saber quem era a mulher misteriosa... Que fim ela tivera? Bem, não importava. Estava atrasado para a escola, e estava ansioso para contar o estranho sonho que tivera aos seus amigos...
Autor: Jarbas Lima Alves da Silva

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