Bem-vindos, nobres espíritos!

Sintam-se em casa em minha humilde morada. Aqui vocês encontrarão alguns de meus loucos textos que ora lhes convido a ler e, se assim desejarem, comentar...

dezembro 22, 2007

Eterna Maldição

Este é um pequeno conto que escrevi com a temática de vampiros. Tentei me forçar a escrever algo não maior do que uma página do word, e esse é o resultado.




Lembro-me bem daquela época. Sangue fresco corria pelas minhas veias, e eu podia sentir meu coração, pulsando, ardendo em meu peito com a chama da vida que se recusa a perecer. Lembro do perfume agradável das flores na primavera e das carícias delicadas dos flocos de neve no inverno. Lembro do gosto doce das frutas e...

Sangue! Em um instante, todas as memórias sublimam como que por mágica. Vermelho. Só consigo pensar em seu gosto agridoce descendo pela minha garganta, fluindo pelas minhas veias e tecidos mortos, dando um novo suspiro de vida a este ser moribundo. Alguns flashbacks ainda despontam em minha mente, mas se dissipam tão rápido quanto surgem. Sinto o cheiro... Perto. O desejo do líquido invade todo o meu corpo, e por fim domina minha vontade. O pouco de sanidade que me restava se desvanece, e como um animal selvagem saio em busca de minha presa.

Corro como o vento através da noite, perscrutando cada canto do imenso vale a procura de minha vítima. Aos olhos dos seres notívagos, não sou mais que um borrão, uma ilusão de ótica. Cada vez mais perto... Meus caninos se alongam, já pressentindo a iminência da alimentação. A hora se aproxima. Minhas pupilas se dilatam, e passam a exibir uma coloração rubra. Minhas feições se tornam mais animalescas, e na minha excitação solto um sonoro grito. E finalmente...

Ali está. Uma garota, no auge de sua beleza, se banhando no lago. Seus longos cabelos sedosos desfilam sobre seu corpo desnudo, e com a delicadeza de um anjo ela os lava, fio por fio, mecha por mecha. O contraste de sua pele alva sob o luar espelhado chega a me hipnotizar, tamanha é a beleza de minha vítima. Sua voz melodiosa canta uma música doce, suave, e por um momento meu desejo vacila. Fico paralisado, enfeitiçado pelos encantos desta donzela. Tão doce, tão inocente...

No entanto, a Fome fala mais alto. O ardor começa a me dilacerar por dentro. Acordado de meu transe, entro em um frenesi e parto em direção à garota. Ela me vê, e seu olhar é de uma extrema confusão, rapidamente sucedida pelo medo. Seu canto cessa, dando lugar a gritos de desespero. Ela faz menção a correr, mas meu olhar penetrante enrijece seus músculos, e sua vontade se submete à minha. Ela luta, chora, implora... Mas é tudo em vão.

Aproximo-me agora calmamente da garota. Lanço-lhe um último olhar, e seu triste semblante me faz sentir um pouco de remorso, pois percebo que ninguém deveria ter o direito de privar o mundo de tamanha beleza. Murmuro um pedido de desculpas em seu ouvido, e cravo meus dentes afiados em seu pescoço. Sugo com força o líquido, preciosa força vital que me sustenta, e em pouco tempo a garota jaz no chão, pálida, inerte, apenas uma casca vazia, uma mera sombra de seu antigo “eu”.

Sinto-me saciado. A loucura passa, e pouco a pouco retomo minha consciência. Só então percebo a atrocidade que cometi. O corpo sem vida e o sangue em minha boca denunciam meu pecado. Impotente diante de minha sina, ajoelho perante o corpo da garota e choro o choro dos condenados. Meus lamentos ecoam pelo vale, em uma triste sinfonia que completa o ciclo de minha eterna maldição. Mais uma vez manchei minhas mãos com o sangue dos inocentes, e mais uma vez nada posso fazer além de lamentar...




Autor: Jarbas Lima Alves da Silva

Um comentário:

bee disse...

É mesmo, existem animes que não sabem nem disfarçar!